Melodrama astucioso e exasperante
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de julho de 2001
De Londrina Especial para a Folha2 
Deu o que falar o prêmio máximo do festival dado ao filme do dinamarquês Lars von Trier. E ainda mais o de melhor atriz entregue, entre aplausos e vaias, à temperamental diva pós-punk islandesa Bjork. Muito se escreveu sobre Dançando no Escuro , muito se discutiu também. Seja lá quem disse o quê, o fato é que se pode encontrar argumentos sólidos e convincentes tanta para elevar o trabalho à categoria de obra revolucionária como para reduzi-la a mero pastiche insuportável.
O filme narra a história de Selma (Bjork), uma infeliz imigrante tcheca, mãe solteira e aplicada operária industrial vivendo nos Estados Unidos nos anos 60. Seu unico objetivo na vida é economizar dinheiro suficiente para salvar o filho adolescente do mesmo mal hereditário que a está deixando progressivamente cega. Nesta história de claras conotações bíblicas, a ex-líder do grupo Sugarcubes encarna com questionáveis doses de realismo essa mistura de heroína trágica e mártir submissa.
Dancer in the Dark é um trabalho que pretende ser o filme sobre as misérias da sociedade americana crítica à pena de morte e à hipocrisia da população, a psicopatia generalizada, o consumismo desenfreado e os abusos do sistema judicial. Tudo filmado na Europa, com atores na grande maioria europeus. Mestre indiscutível do marketing (é bom recordar que é o ideólogo do movimento Dogma 95, espécie de voto de castidade contra as impurezas contagiosas do cinema contemporâneo), de certa forma Lars von Trier é vítima de sua própria maquinaria, de sua própria auto-indulgência e esquizofrenia artística. Dançando no Escuro#é um filme solene e maniqueísta que não alcança o mesmo grau de credibilidade dos trabalhos anteriores do cineasta, por mais estética de cinéma-verité que utilize.
Paródia do gênero musical de Hollywood? Dedo acusador frente à moral norte-americana? Mensagem anti-capitalista? Provocador nato, Lars von Trier alinha em seu filme virtudes e grosserias correndo paralelas, distanciadas ambas de toda sutileza. Delirante, atrevida, impactante, vanguardista com suas imagens pigmentadas captadas por uma centena de câmeras digitais, Dançando no Escuro é, apesar dos excessos e dos despropósitos, uma aposta estética audaciosa e de inegável potencial dramático. É polêmica em estado bruto, e isto é motivo suficiente para uma ida ao cinema. (C.E.L.J.)


