Veneza - São dois os flagelos a atormentar a vida de quem participa do Festival de Veneza, não bastasse a agenda diária já congestionada por uma dúzia de atividades cumulativas e com frequência em cronograma conflitante. Além da legião de milhares de enormes e vampirescos pernilongos - menos mal: sem dengue e sem febre do Nilo, apenas portadores de febre de cinema... -, os venezianos (e italianos em geral) decidiram que o advento do euro é a salvação da lavoura. Deles, claro, porque a esta altura ninguém mais tem d'uvidas de que este é o mais absurdamente caro festival da história dos festivais. Alimentação, transporte e hospedagem são o alvo principal dessa ambição desmedida que está afetando também o dia-a-dia da gente da terra, obrigada a conviver com uma perversa política de preços, pública e privada.
A 59 edição do Festival de Veneza confirma uma regra básica. Como ocorre na maioria das mostras de cinema, o material selecionado mais interessante vai surgindo e se impondo nas salas aos poucos. Depois do épico ''Estrada da Perdição'', outra auspiciosa presença americana é ''Far From Heaven'' (Distante do Paraíso), uma produção de Steven Soderbergh e George Clooney com direção de Todd Haynes, premiado em Cannes-98 por sua inteligente recriação do ''glam rock'' dos anos 70 em ''Velvet Goldmine''. Agora Haynes faz nova incursão no tempo, de volta aos anos 50 para reverenciar o melodrama à moda Douglas Sirk e John Stahl. Uma bela homenagem, um filme que seria exibido aqui fora de competição não fosse pela desistência à ultima hora de ''The Hours'', de Stephen Daldry.
Em Connecticut, outono de 1957, tudo parece muito próximo ao paraíso. Famílias classe média sólida vivem em residências confortáveis cercadas por jardins bem cuidados, emoldurados por árvores de folhas multicoloridas. Enquanto as mulheres se reúnem para um animado lanche, os maridos atribulados trabalham e as deliciosas crianças vão à escola. Brancos e negros parecem conviver serenamente, embora estes sejam apenas empregadas domésticas ou jardineiros, ou no máximo donos de uma modesta loja de flores. Cathy, a protagonista (Julianne Moore tem boas chances de levar a Coppa Volpi de melhor atriz), está sempre em belos vestidos, com o cabelo irrepreensível; o marido (Dennis Quaid) é o bem sucedido chefe local de uma fábrica de televisores, no trabalho sempre até mais tarde.
Uma noite, preocupada e diligente, Cathy leva o jantar para o marido no escritório, e o encontra nos braços de outro homem. Busca conforto na amizade com o jardineiro negro, mas a intolerância da vizinhança interrompe o relacionamento. Logo compreende que de fato está muito longe do paraíso.
''Far From Heaven'' se inspira no cinema de melodrama da Hollywood dos anos 50, aquele da época de ouro da ''Meca'', mais exatamente nos ''filmes de mulheres'' daquele período em que grandes mestres do gênero, como Douglas Sirk, reinavam absolutos. São vários os títulos visitados, entre eles ''Palavras ao Vento''. Belíssima homenagem, pensada e elaborada com afetuosa dedicação, quase esculpida à mão - a direção de arte é de tirar o fôlego - com minuciosa entrega de cinéfilo.
Tirar mais qualidade da quantidade não parece tarefa muito difícil no festival. De modo geral, os filmes das duas mostras competitivas são na pior das hipóteses interessantes, alguns mais, outros menos. Confira, nesta página, uma panorâmica sobre alguns títulos.

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