Menos mal. Mas não decisivo. E ainda longe de uma mudança substantiva, adjetiva ou seja lá o que se necessita para, nestes dias derradeiros, devolver a esta Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica de Veneza seus grandes momentos de outras edições. Em inesperada mas compreensível entrevista coletiva ontem, o diretor do evento, Marco Muller, e o presidente da Biennale, Paolo Baratta, praticamente se desculparam pela fraca performance do festival deste ano. Mas a desculpa veio pelo viés equivocado: não se trata de trazer Hollywood de volta (''um ano difícil, por causa da greve dos roteiristas'') como prometeram, mas de buscar bons filmes autorais e corrigir a miopia que sabidamente descartou títulos bem mais significativos.
Escrito por Jenny Lumet, filha do grande Sidney, e dirigido por Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes), ''Rachel Getting Married'' é um bom momento de cinema feito nos EUA com perfil às avessas do esquema industrial. Com assumida cara de B.O. (baixo orçamento), o filme tem nas tensas pulsões familiares o seu foco principal.
Kym (Anne Hathaway, na contramão de sua avoada Andy Sachs de ''O Diabo Veste Prada'') é uma das filhas de família burguesa de Connecticut. Por conta de um acidente familiar no qual morreu seu irmão caçula, há anos ela frequenta um centro de desintoxicação de drogados. Logo na primeira sequência ela está deixando o local para ir ao casamento da irmã, a Rachel do título. Casamento, aliás, pouco convencional. Neste momento, sua volta à casa não é exatamente de compatibilidade ou de adequação: ela reacende velhos conflitos, acirra ciúmes competitivos e sua presença é o estopim de tensões familiares que vão explodindo na véspera do casamento.
Para realizar esta insólita incursão ao melodrama familiar, Jonathan Demme recorre à sua desenvoltura como documentarista e assina um bem resolvido ''docudrama''. É obrigatória aqui a referência ao modelo imbatível que atende pelo nome de ''Cerimônia de Casamento'', realizado por Robert Altman há exatos 30 anos. Não é exatamente um filme coral fulgurante como o diretor de ''MASH'' e ''Nashville'' construía como ninguém, mas atende às necessidades básicas e imediatas para livrar da privação a crítica aqui em Veneza.
Bastante aceitável, a definição do próprio Demme para seu filme, durante a concorrida coletiva: ''É um drama contemporâneo com sentido de humor agressivo''. Digna das melhores recomendações a fotografia de Douglas Quinn, com uma nervosa e bem resolvida câmera na mão, e um coletivo com belas interpretações. A música que ajuda a compor este cenário entre neuras e risos é outra acertada opção de Demme: em meio à festa, irrompe uma legítima mini-escola de samba made in Brasil.
O último título do Japão alinhou a segunda animação depois do bobinho ''Ponyo''. Sempre disputado pelos grandes festivais da Europa, que o consideram um filósofo, Mamoru Oshii comparece com ''The Sky Crawlers'', baseado em novela gráfica de Hiroshi Mori. Na trama, a vida cotidiana dos ''kildren'' (na verdade são children mesmo), uma raça de pilotos geneticamente modificados. Eles são condenados a ficar sempre jovens e a combater em ''jogos de guerra'' para distrair os adultos num ''game show'' televisivo. Não podem ter emoções. E o filme gélido e esquemático de Oshii também não é capaz de transmitir nem emoções e nem enviar mensagens interessantes ao cérebro do espectador. Enésimo equívoco da seleção competitiva.
E afinal e felizmente uma ilha de tranquilidade neste mar de incoerências. Fora de concurso, a delicadeza e a inteligência da cineasta francesa Agnès Varda, 80, no documentário autobiográfico ''Les Plages d'Agnès'', estranhamente visto por poucos - talvez porque nada tenha a ver com glamour ou frivolidades. Narrado pela própria diretora, é uma cálida viagem que reconstrói boa parte de sua vida privada e artística. Mágico e feliz, o olhar de Varda sobre si mesma nunca é auto-indulgente ou chantagista. Ou excessivo ou desinteressante.
Afinal, além de talentosa realizadora de ficções e documentários, ela foi apaixonadamente casada com Jacques Demy, um dos fundadores da Nouvelle Vague - movimento vital para o cinema na segunda metade do século passado, e no qual ela também marcou posição. Rico em informações, mas não congestionado, belo ''e com um pouco de imaginação, muito verdadeiro mas não muito verdadeiro'', como ela ternamente assegurou na coletiva.

* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza.

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