Melodrama abusa dos clichês
Irwin Winkler é um megaprodutor competente que deveria se contentar somente com esta função (''Rocky'', ''O Touro Indomável'', ''Os Eleitos'', ''New York, New York'', ''Os Bons Companheiros'', entre outros). Como diretor, suas realizações, embora sem dimensão de catástrofe, não são honrosas como suas produções: ''Culpado por Suspeita'', ''A Noite e a Cidade'', ''A Rede''. A estes pode-se agora acrescentar ''Tempo de Recomeçar'' (veja a programação de cinema na página 2), uma firula de marketing pré-fabricado, uma construção recheada de ingredientes para trazer a platéia firme no cabresto sentimental.
George Monroe (Kevin Kline) é arquiteto excêntrico, suburbano e irascível, bem de acordo com critérios, recortes e perfis existenciais à moda da costa oeste americana. Leva aquele jeito irresistível de simpático livre-pensador. Mas no momento anda angustiado. Ao longo dos anos, sacrificou sua vida pela profissão. Sua insatisfeita ex-mulher (Kristin Scott-Thomas), embora ainda o ame, buscou a saída e agora está casada com outro. Seu filho adolescente, Sam (Hayden Christensen), é punk, drogado e insolente. E depois de 20 anos na mesma empresa, George acaba de ser despedido. Para complicar definitivamente as coisas, descobre que um câncer vai liquidá-lo em 120 dias. ''O que você faria se tivesse só quatro meses de vida?'', ele pergunta à enfermeira. ''Comeria muita carne vermelha'', ela responde amável. Diante deste típico quadro de contra-corrente, George tem apenas um verão para tentar reconstruir a casa deixada pelo pai. Na empreitada ele pretende aproveitar e restaurar a relação com a ex-mulher, com o filho e até com os vizinhos.
Como o título original sugere sem meias palavras - ''Life as a House'' -, estamos diante de uma metáfora melodramática, inequívoca máquina de lágrimas que retoma aquilo que havia de pior em ''Laços de Ternura'', em especial as instantâneas e inverossímeis transformações dos personagens - um passe de mágica recupera por completo o adolescente. Sob o rótulo providencial e abrangente de comédia dramática, Winkler embaralha os clichês do divórcio, da adolescência e do amor com temas mais sensíveis como a fragilidade da relação pai-filho. Outro problema é o roteiro de Mark Andrus (''Melhor Impossível''), que preenche os 123 minutos com pouco de essencial e muito de supérfluo, vale dizer, subtemas periféricos que nada acrescentam a uma já debilitada trama principal.
Não será surpresa uma indicação de Kevin Kline para o Oscar, mesclando humor, drama e simpatia em personagem que merecia menos clichês e melhores linhas de um texto frequentemente débil. E por último, de longe e a rigor o único elemento sedutor deste ''Tempo de Recomeçar'': a belíssima localização desta residência tão rapidamente construída. Esplendido terreno, com soberba vista panorâmica. É transferir a vizinhança e mudar em seguida.(CELJ)





