Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Enquanto o forró comercial parece não apresentar fôlego suficiente para se manter nas hostes da indústria fonográfica, a qualidade musical nordestina ganha espaço em vários discos do CPC-Umes. A força do forró e do baião de raiz esfarelam qualquer influência pop agregada pelas gerações mais recentes, sem concessões ao mercado.
No ano passado surgiram várias comemorações alusivas aos 50 anos do baião que ainda estão rendendo dividendos. Entre elas estão os lançamentos de Carmélia Alves, Antonio Barros e Cecéu e Cézar do Acordeon. Três nomes de peso da música nordestina que ganharam reconhecimento na gravadora CPC-Umes, de São Paulo.
Há 30 anos sem gravar um disco solo, Carmélia Alves foi coroada como ‘‘Rainha do Baião’’ pelo próprio Luiz Gonzaga. Entretida com participações especiais e o grupo As Cantoras do Rádio, Carmélia foi se acomodando longe dos estúdios.
Crooner do Copacabana Palace na década de 40, a cantora se ambientou no meio artístico da Rádio Nacional. Luiz Gonzaga costumava dizer: ‘‘Você cuida do clássico que eu cuido do povão’’. Ambos desenvolveram uma longa amizade que culminou com a gravação de ‘‘Luiz Gonzaga & Carmélia Alves ao Vivo’’, em 1977. O disco foi lançado em CD em 1993.
‘‘Carmélia Alves Abraça Jackson do Pandeiro e Gordurinha’’ surgiu a partir de um convite do instrumentista Cézar do Acordeon, que a levou para conversar com Marcus Vinícius, diretor artístico do CPC. ‘‘Ele me perguntou: ‘O que você gostaria de fazer e ainda não fez? Eu levei um projeto sobre músicas do Gonzagão. Aí ele disse: ‘mas o Gonzagão já está sendo homenageado pelo Cézar do Acordeon. Que tal fazer um disco sobre o Jackson? O Jackson do Pandeiro e o Gordurinha foram meus amigos, então eu concordei’’, comenta Carmélia Alves, em entrevista à Folha2.
Para incluir a homenagem a Luiz Gonzaga, o CD abre com ‘‘Baião’’ (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), que traz a participação especial de Inezita Barroso. O disco tem clássicos do repertório de Jackson do Pandeiro como ‘‘Chiclete com Banana’’ (Gordurinha/José Gomes), ‘‘Sebastiana’’ (Rosil Cavalcanti), ‘‘Um a Um’’ (Edgard Ferreira) e ‘‘Cantiga do Sapo’’ (Jackson do Pandeiro/Buco do Pandeiro). ‘‘Forró em Caruaru’’ (Zé Dantas) é cantada ao lado de Luiz Vieira.
Das músicas gravadas por Gordurinha entraram, além de ‘‘Chiclete com Banana’’, ‘‘Mambo da Cantareira’’ (Barbosa da silva/Eloide Warthon) e ‘‘Súplica Cearense’’ (Gordurinha), com participação de Elymar Santos. Gordurinha e Jackson do Pandeiro incluíram elementos urbanos na linguagem musical nordestina, fundindo gêneros e desenvolvendo características rítmicas próprias.
Aos 76 anos, Carmélia Alves mostra fôlego quase juvenil. ‘‘Eu sempre tive o hábito de me autoanalisar e achar que poderia ter feito melhor. Posso dizer que o disco é bom, está bem gravado e escolhi bem as músicas. Não se impressione, que eu estou inteira e com cabeça de 20 anos’’, acrescenta.
Em pleno império da música comercial, a ‘Rainha do Baião’ setencia: ‘‘Não dá para dizer que o baião está sendo bem homenageado em seus 50 anos, porque a música de raiz foi muito castigada. O Luiz Gonzaga achava que ninguém dava bola’’.
Arranjado por Cézar do Acordeon, o disco ‘‘Carmélia Alves Abraça Jackson do Pandeiro e Gordurinha’’ é música nordestina de categoria interpretada por quem faz parte desta história. Com seriedade, sem diluições ou interesses mercadológicos.