MELHOR QUE O SILÊNCIO
Mauro Dias
Agência Estado
Melhor do que ouvir Araci de Almeida cantando Camisa Amarela, só ouvir Nora Nei cantando Menino Grande ou Nara Leão cantando Diz Que Fui por aí. Melhor do que isso, só mesmo o silêncio. E melhor que o silêncio só João. É a conclusão a que chega Caetano Veloso nos versos da bossa nova Pra Ninguém. A música é a última faixa do disco Livro, com o qual Caetano está concorrendo ao Grammy deste ano.
É, mais uma vez, a confissão da adoração de Caetano por João Gilberto. Foi ao ouvi-lo, há 41 anos, pelo serviço de alto-falantes da praça central de Santo Amaro da Purificação, que Caetano resolveu ser músico. E o tempo fez do ídolo o idolatrado. Caetano é o produtor do novo disco de João Gilberto: João Voz e Violão, lançamento da gravadora Universal, que chega às lojas no fim de semana. Dez faixas, apenas, pouco mais de 30 minutos de música.
Duas das músicas são de Caetano Veloso: Coração Vagabundo, da fase pré-tropicalista (saiu no disco Domingo, que Caetano dividiu com Gal Costa, em 1967) e Desde Que o Samba É Samba, originalmente no disco com que, em 1993, Caetano e Gilberto Gil comemoravam os 25 anos da explosão tropicalista. Eu jamais sugeriria canções minhas a João, disse o produtor-compositor Caetano, em entrevista transcrita no libreto que acompanha os exemplares de divulgação de João Voz e Violão. Mas ele me surpreendeu com duas, admite. Nunca imaginei que João fosse gravar Desde Que o Samba É Samba, conta. Achei maravilhoso.
Caetano nem se considera produtor do CD, de fato. Eu fui uma espécie de produtor executivo do João, não do disco, diz. A idéia de João Gilberto era regravar algumas músicas de seus três primeiros discos Chega de Saudade, de 1959, O Amor, o Sorriso e a Flor, de 1960, e João Gilberto, de 1961. Foram os discos que deram cara à bossa nova. A rigor, não são apenas os discos inaugurais do movimento, mas sua súmula: contêm tudo o que é indispensável a uma discoteca da bossa. Mas Caetano convenceu João a selecionar outras músicas.
No entanto, duas músicas daqueles três discos entraram no repertório de João Voz e Violão: Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça, e Chega de Saudade, de Tom e Vinícius de Morais. E há mais uma regravação, no novo disco: Eclipse, de Ernesto Lecuona, cantada em espanhol, como João havia feito no disco João Gilberto en Mexico, de 1979.
Completando o repertório estão Você Vai Ver, letra e música de Tom Jobim, que Tom havia gravado em dueto com a mulher Ana Lontra Jobim, em 1980; Não Vou pra Casa, número pouco conhecido de Antônio Almeida e Roberto Riberti, de 1941; Eu Vim da Bahia, de Gilberto Gil, sucesso original nas vozes do Quarteto em Cy, no fim dos anos 60; Da Cor do Pecado, de Bororó, samba lento lançado em 1939 por Sílvio Caldas, que João canta em shows, mas nunca havia gravado; e Segredo, de Herivelto Martins e Marino Pinto, gravado primeiro, com enorme êxito, por Dalva de Oliveira, em 1947.
A imagem da bossa nova está associada ao banquinho e ao violão tanto quanto à figura de João Gilberto, com seu indefectível terno marrom, figura sóbria, de óculos, pernas cruzadas, contrição ao tocar e cantar. No entanto, João Gilberto nunca havia gravado, em estúdio, um disco só de voz e violão. Há discos seus de voz e violão, sim, mas gravados ao vivo, com ruídos de platéia, interferências diversas.
E João Gilberto é melhor em estúdio, onde pode estar à vontade consigo e com sua arte. Tanto que João Voz e Violão foi gravado em meros dois dias, no ano passado. O disco custou para sair porque havia a hipótese de ser, posteriormente, acrescentada orquestra às faixas já gravadas. Jaques Morelenbaum escreveria os arranjos. Mas João não conseguia decidir-se.
Ora preferia o disco como estava voz e violão , ora imaginava como seriam as orquestrações (que Morelenbaum não chegou a escrever, ao contrário do que andou sendo divulgado: o arranjador esperava a palavra do cantor para começar o trabalho). Por fim, Caetano Veloso convenceu João Gilberto de que o disco deveria ficar como estava. E aí está o primeiro voz e violão de estúdio do cantor. Melhor do que isso, nada.





