O Troféu Gralha Azul este ano virá ainda no calor dos espetáculos. Ele será entregue aos melhores do teatro paranaense em dezembro, às vésperas da recessão de verão. A entrega dos prêmios nesta edição terá uma homenagem à parte - serão lembrados os 50 anos de vida artística de Armando Maranhão. Ator, diretor, professor de teatro procura desconversar sobre o assunto: ‘‘Já me falaram dessa homenagem, mas não sei de nada’’.
Ele espera pelas surpresas que virão, bem de acordo com sua maneira de ser: discreto, quase recatado. Foi no mês de setembro de 1948 que o então adolescente Armando, vindo do Maranhão para estudar em Curitiba - morava na Casa do Estudante Universitário - fundou com outros colegas o Teatro do Estudante do Paraná.
Nascia ali o caminho que jamais deixaria de percorrer. Ao mesmo tempo surgia o celeiro de artistas, que iria alimentar os palcos brasileiros. Nesse tempo o quadro era inóspito para a arte. O Teatro Guaíra estava interditado e a proposta do grupo era ‘‘chamar a atenção do governo’’. ‘‘Hoje Curitiba tem nove teatros e estou muito contente’’, explica.
A paixão teatral tinha um veio na família. Um tio de Armando, João Castelo Branco de Almeida, escrevia peças para Procópio Ferreira. Quando o célebre ator veio em excursão a Curitiba com ‘‘Deus lhe Pague’’, de Joracy Camargo, e ‘‘Essa Mulher É Minha’’, de Raimundo Magalhães, encontrou tempo para assistir a uma montagem dos estudantes.
Ao final do espetáculo, entusiasmado com a atuação de Armando, convidou-o para integrar o elenco na temporada de Florianópolis. Ele acabara de dispensar um ator, que se indispusera com a companhia. ‘‘Só depois da estréia foi que contei que era sobrinho de João Castelo’’, lembra o ator.
Ao mesmo tempo que o teatro ganhava cada vez mais espaço em sua vida, as artes plásticas consumiam parte de seu tempo. Armando Maranhão foi o único aluno de sua turma a concluir o curso de escultura na Belas Artes. Tinha como professor Erbo Stenzel, mestre severo que exigia muito do estudante. Valeu a pena todo esforço: ‘‘Sou o único escultor com registro no Mec’’, orgulha-se. Voltado às ciências humanas, Maranhão concluiu ainda o curso de Filosofia.
Porém, a paixão maior sempre foi o teatro, e este deu alegrias em troca. No final de 1955, Paschoal Carlos Magno, criador do Teatro do Estudante do Brasil, chegou ao Paraná. Ele vinha percorrendo o País e escolhendo um representante em cada Estado para estudar no exterior.
Depois de ver ‘‘As Preciosas Ridículas’’, de MoliSre, em cartaz no Clube Curitibano, chamou o diretor da peça e se assustou ao deparar com o jovem. ‘‘Tão novo e fazendo MoliSre... Por que não escolhe uma peça mais fácil?’’ Maranhão a princípio assustou-se com a observação de Magno, mas foi com este trabalho que ganhou a bolsa, como representante paranaense.
A viagem possibilitou ao artista visitar dez países da Europa e, mais importante que isso, teve aulas com professores famosos: Federico Fellini, Lawrence Olivier, Roberto Rosselini, Edoardo Di Fillipo, Jean Vilar, Franco Rossi entre outros. No grupo de estudantes brasileiros estavam Tereza Rachel, Othon Bastos, Fernando Amaral e Celme Silva, para citar alguns.
A ligação com Paschoal Carlos Magno teria continuidade através dos certames nacionais de teatro que ele realizaria durante muitos anos. Armando levou sua companhia a todas essas edições. O Teatro do Estudante do Paraná integrou a Caravana da Cultura, apresentando-se nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Sergipe e Alagoas. Pela Barca da Cultura esteve em Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará, Goiás e Brasília.
Armando Maranhão dedica-se também às caricaturas. Nos anos 80 ele lançou um volume onde brincava com seus amigos de palco. A segunda edição deverá ser lançada este ano, bancada pela Secretaria da Cultura. Nesse livro a galeria de personagens é muito mais ampla - tem desde a crítica de artes Adalice Araújo ao maestro Alceo Bocchino e a poeta Pomphília dos Santos.
A lista de homenagens é longa: tem Deni Schwartz, David Carneiro, Helena Kolody, Dalton Trevisan, Maria de Lourdes Montenegro, Eleonora Greca, Jorge Sade, Paul Garfunkel, René Dotti, Rosa Magalhães, Erbo Stenzel, Claudio Correa e Castro, Carlos Miranda, Ivens Fontoura, Sylvio Back, Theodoro de Bona, Jair Mendes, Nena Inoue.
Mesmo aposentado pelo Estado, Maranhão continua na ativa. Dá aulas para iniciantes no Teatro Lala Schneider, ao lado de João Luiz Fiani, ‘‘um de meus melhores alunos’’. Carinho especial ele reserva para outra ex-aluna: Denise Stoklos. ‘‘Ela é maravilhosa’’, diz, misturando admiração à amizade.
Maranhão dirige as montagens dos alunos de artes cênicas, mas costuma subir ao palco atendendo ao apelo que ele representa. Depois de realizar 90 peças e conquistar uns 70 troféus - todos devidamente entronizados em duas salas de sua casa - o homem de teatro continua se nutrindo da arte.
‘‘Estou contente por estar completando 50 anos de teatro’’, declara. No correr das décadas viu de tudo, as mudanças mais radicais que a arte poderia ter sofrido nestes tempos cada vez mais nervosos. ‘‘Cada época tem uma coisa diferente, mas o que é bom volta’’, constata. Depois de modismos como o nu, os palavrões, o besteirol volta sempre o texto romântico, o clássico. Isso porque ‘‘teatro é uma coisa só, é arte’’.Marcelo AlmeidaArmando Maranhão: aluno de Federico Fellini, Lawrence Olivier, Roberto Rosselini, Edoardo Di Fillipo, Jean Vilar, Franco Rossi, entre outrosZeca Corrêa Leite

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