Basta olhar para perceber que Max Nunes é uma piada. Franzino, com baixa estatura e andar vagaroso, o carioca de 78 anos é tão engraçado quanto os inúmeros personagens que criou em 50 anos de tevê. Ao lado de Jô Soares desde 1967, quando uniram-se para criar ‘‘Faça Humor Não Faça a Guerra’’, na Globo, Max não é só responsável pelas piadas que saem da boca do humorista no ‘‘Programa do Jô’’, como já viu suas criações serem usadas pela maioria dos comediantes brasileiros.
Além de criar bordões clássicos do humor, como ‘‘bota ponta, Telê!’’, ‘‘o macaco tá certo’’, ‘‘tem pai que é cego’’, ‘‘não me comprometa’’, ‘‘sois rei?’’ e ‘‘muy amigo’’, ele já escreveu para programas como ‘‘Satiricom’’ e ‘‘Topo Gigio’’, além de ‘‘Planeta dos Macacos’’ e ‘‘Viva o Gordo’’. Com problemas na coluna e cinco pontes de safena, Max não esconde o pavor que tem de avião, embora viva na ponte-aérea devido à produção do Jô ser gravada em São Paulo e ele morar no Rio. ‘‘Em avião, eu entro passageiro e saio sobrevivente’’, ironiza Max.
Max Newton Figueiredo Pereira Nunes começou como redator de programas de rádio em 1948. Neste período, criou na Rádio Nacional um dos programas mais importantes do humor brasileiro: ‘‘Balança Mas Não Cai’’, que estreou em 1950 já com o clássico quadro ‘‘Primo Rico e Primo Pobre’’, interpretados por Paulo Gracindo e Brandão Filho – o programa foi adaptado para a Globo em 1964, a pedido de Walter Clark.
Mas, antes mesmo de escrever, aos oito anos, Max começou a se apresentar nas rádios cariocas e ganhou o apelido de ‘‘gargantinha de ouro’’. Além de ficar conhecido como autor de ‘‘Bandeira Branca’’, que compôs ao lado de Laércio Alves, Max atuou até a década passada como cardiologista.
Qual o seu esquema de trabalho com o Jô atualmente?
Eu o ajudo na redação do programa. Dou sugestões de pauta e escrevo aqueles textos de abertura, geralmente com piadinhas. Fico atento às notícias e por isso leio, no mínimo, cinco jornais pela manhã. Fico em São Paulo de segunda a quarta e volto para o Rio. Fico bolando coisas. Gosto de trabalhar em casa, apesar de ter horror a utilizar o computador. Eu torci muito para acontecer de fato o ‘‘bug’’ do milênio. Não me dou com o computador, apesar de utilizá-lo há algum tempo. Na verdade, eu crio na mão mesmo e só passo o texto para o computador, coloco no disquete e mando por e-mail. Mas tento ter o mínimo de contato possível. Com exceção de camisa, não tenho nenhuma habilidade com coisas com mais de dois botões. Não sei fazer funcionar.
A mudança para a Globo interferiu no seu trabalho?
Existe uma exigência maior na Globo. Mas desde o início ficou claro que a gente não iria entrar na paranóia do Ibope e da sombra do microfone. Porque na Globo tem aquela coisa de ‘‘apareceu a sombra do microfone! Grava de novo!’’. Aí não dá. Mas fiquei na mesma, nesta vinda para a Globo, pois continuo tendo de viajar. Não é que tenha medo de avião, mas eu entro passageiro e saio sobrevivente. Agora mesmo decidi não acompanhar o Jô às Olimpíadas. Com a idade que estou, não dá para correr atrás de canguru. É terrível acordar velho todo dia.
Como você vê a evolução do humor do rádio para a tevê?
Acho que não teve continuidade. Na verdade, o rádio sempre foi mais criativo que a tevê. Mesmo porque se tinha mais espaço para programas de humor. A televisão virou um veículo de novelas e o rádio ficou informativo. Mas independentemente do veículo, o humor precisa ter alguma relação com o povo e a situação do País. Algo engraçado de uma galinha não vai repercutir tanto quanto uma piada de político, por exemplo. Mas acho que os humoristas são mal aproveitados na tevê. O Chico Anysio e o Jô Soares deveriam voltar a se dedicar mais ao humor. Até já falei isso para o Jô e ele até pensa em voltar, se criarmos algo realmente novo.
Como surgiu a idéia do ‘‘Balança Mas Não Cai’’?
Quando acabou a Guerra, em 1945, era uma época difícil de conseguir moradia. Às vezes reuniam-se várias famílias e alugavam um apartamento. Se falava: ‘‘qualquer dia cai este edifício com tanta gente morando’’. Foi aí que caiu a ficha. Mas só em 1950 o programa estreou na Rádio Nacional. O quadro mais importante era ‘‘Primo Rico e Primo Pobre’’, com Paulo Gracindo e Brandão Filho. Não esperava o sucesso que o programa atingiu, tanto na rádio quanto na Globo. Lançamos vários humoristas e expressões, como ‘‘mengo’’, por exemplo, numa alusão ao Flamengo. Na Globo, o programa era de guerrilha. O horário em que a emissora perdia, colocavam ‘‘Balança Mas Não Cai’’ para competir. E sempre ganhava. No início, o programa era acusado de ser apelativo. A mesma ladainha que existe até hoje...
Nestes 50 anos de tevê, qual período marcou mais você?
Os ‘‘anos de chumbo’’ realmente foram terríveis. A tevê praticamente acabou na época. Existem situações cômicas, mas aconteciam fora da tevê. Uma vez um censor militar ficou espantado com o valor do contrato do Roberto Carlos com a Globo. Ele não entendia porque se pagava tanto para o cantor. E sugeriu: ‘‘Vocês podiam colocar o retrato do Roberto no vídeo e a música de fundo. Não precisariam gastar tanto’’. Aí o Borjallo, que era diretor de programação, devolveu. ‘‘Coronel, você acaba de desinventar a televisão’’. Eles não tinham nenhuma visão. Pior foi um censor que trabalhava dentro da Petrobras. A gente fazia algumas críticas à empresa. Me disseram que o militar queria falar comigo e fui. Ele reclamou que as críticas à Petrobras estavam se repetindo no ‘‘Balança Mas Não Cai’’. ‘‘Estava para falar com o senhor há algum tempo, mas não consegui encontrá-lo’’, falou a mim rispidamente. Humildemente indaguei: ‘‘Isto é estranho e me preocupa. Porque tenho residência fixa, telefone, lugar de trabalho e a Petrobras não me encontra. Como é que a Petrobras vai encontrar petróleo no fundo do mar?’’.

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