Meio século de arte
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de janeiro de 2002
Zeca Corrêa Leite 
Tenho plena consciência de que cada pessoa tem seu espaço. Ajudando aos outros você acaba se ajudando e é por aí que você tem que seguir. Com essa certeza e a alegria de estar propiciando trabalho a uma porção de operários, o ator Ary Fontoura exala satisfação e contagiante energia momentos antes de se recolher ao camarim para se transformar em Moll Flanders, personagem central da peça A Diabólica Moll Flanders em temporada até 3 de fevereiro no Teatro HSBC em Curitiba.
As lembranças acometem o ator em alguns momentos, mas ele não é dado a ficar remoendo o passado. Assim como bate a emoção por estar iniciando em sua terra natal um espetáculo que vai correr todo o Brasil, também é líquido e certo que a produção exige dele estar atento a cada segundo. Afinal, Ary assina a produção. Mesmo não suspirando pelas lembranças que chegam, ainda assim deixa escapar: Quando aqui era o Cine-Teatro Avenida assisti ao primeiro teatro da minha vida. Fica na dúvida entre Sempre no Meu Coração ou Deus lhe Pague.
Todas as noites ele entra na pele da ladra inglesa, dos 11 aos 70 anos. O desafio é seu combustível: Ser mulher é um processo complicado. No próximo domingo Ary completa no palco 69 anos de idade, ao mesmo tempo em que, neste 2002, celebra os 50 de vida artística. Nestas décadas deixou sua marca em personagens dos mais variados como um malandro divertido na histórica montagem de Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho; na tevê foi sêo Flô, pacato marido de uma histérica Dona Pombinha em Roque Santeiro, o impagável avarento Nonô Correia em Amor com Amor se Paga; profeta em O Cafona, o professor Aristobulo em Saramandaia.
Tendo passado pelo palcos, sets de filmagens e estúdios radiofônicos, foi na televisão que mais intensamente chegou ao público. São mais de 30 novelas na TV Globo, passando por autores dos mais diversos estilos, desde Janete Clair a Dias Gomes e Bráulio Pedroso.
Estrear uma nova montagem no ano em que emplaca meio século de arte é para Ary Fontoura uma festa. E ele a divide com as colegas de trabalho (plagiando Sílvio Santos) de maneira peculiar: homenageando grandes nomes femininos imprimindo em Moll Flanders algumas de suas características: tem o sorriso de uma, o olhar de outra... Aliás, o olhar é de Fernanda Montenegro: A zoiuda, entrega Fontoura.
Qual foi o ponto de partida que deu origem a estes 50 anos de teatro? Qual foi sua primeira peça?
Neste período não entra a fase amadora do meu trabalho. Conto 50 anos a partir do momento profissional meu aqui em Curitiba, que foi com o rádio: trabalhei na PRB-2, Rádio Guairacá, Rádio Colombo. Fazia rádio-teatro, cantava em várias casas de shows, restaurantes. Trabalhei em circo; trabalhei com os Irmãos Queirolo ao mesmo tempo em que estudava Direito. Tudo isso profissionalmente. Na televisão ingressei nos anos 60.
Uma data fechada 50 anos acrescenta alguma coisa a esse amor que você tem pela arte?
Dia 27 de janeiro faço 69 anos. Com 69 anos estou trabalhando, estou fazendo, diga-se de passagem, trabalhos que a rigor teria que ter feito 20 anos atrás por serem tão pesados, tão difíceis e requererem um vigor físico que de repente não sei onde encontro. Deus me ajuda. Mas, por que não dizer que sou absolutamente feliz? Felizardo porque estou trabalhando naquilo que gosto, fazendo apenas o que gosto. Nunca fui contrariado na minha vida, tendo que exercer outra coisa que não fosse o que meu coração determinava.
Como foi que você despertou para o teatro?
A descoberta se deu muito cedo. Fui felizardo nesse aspecto; sei que às vezes é difícil quando as pessoas estão numa encruzilhada para descobrirem aquilo que querem ser na vida. Sempre tive vontade e criei espaços, indo em busca do meu ideal. Minha família absolutamente não gostava das minhas idéias, achava que teatro era uma coisa temerária, que não era uma profissão. Era uma arte mal-vista, as pessoas que ali estavam eram consideradas de maneira pejorativa, e efetivamente pai nenhum queria isso para seu filho. Então, fiz questão absoluta de concordar na aparência e discordar dentro de mim: Quando atingir a maioridade daí revelo o que eu quero. Aliás, sempre que era contrariado nos meus propósitos, concordava para sobreviver e conviver bem, mas no íntimo sabia que um dia eu iria discordar.
Foi o que aconteceu?
O tempo foi passando e as pessoas viram que era difícil me modificar. Aí concordaram e fizeram muito bem, porque hoje me sinto vitorioso. Valeu a pena a intolerância deles, porque me deu mais força para ir em busca do que queria, e também valeu a pena a tolerância posterior porque foi o prêmio ao meu esforço.
A Diabólica Moll Flanders: você pensou na peça para seus 50 anos ou foi algo que aconteceu?
Aconteceu. O Charles Moeller, que é o diretor do espetáculo, escreveu baseado no livro de Daniel Defoe e me entregou: Fiz esta peça para você fazer. Na ocasião eu estava com uma comédia de sucesso, Corra, que Papai Vem Aí, que terminou ano passado. Estava com ela há seis anos e não havia espaço para esta outra. Paguei direito autoral antecipado e dois anos e meio após senti que esse poderia ser um trabalho. Nem pensei nos meus 50 anos. Por que? Porque eu acho que teatro é desafio e este tipo de papel eu nunca havia feito. É um papel difícil que requer muita compenetração. Pensei que fosse mais fácil. Ser mulher é um processo complicado. Valeu por isso, pelo desafio.
Você está vivendo uma festa?
Bem, quem aniversaria dá festa. Então resolvi dá-la junto ao público que me colocou no lugar onde estou e me fez ator. Para ele vai a primeira fatia de bolo e o restante divido entre as colegas que comigo estiveram nestes 50 anos. Trabalhei praticamente com todas as atrizes brasileiras: Fernanda Montenegro, Marília Pera, Tônia Carrero, Maria Della Costa... Sabe o que vou fazer? Uma homenagem a essas mulheres. O espectador mais arguto que foi (ou continua sendo) fã dessas atrizes vai observar que terá um olhar da zoiuda] Fernanda Montenegro, um sorriso meio cínico da Marília Pera, enfim uma série de requisitos que trouxe para o trabalho para homenageá-las.
As mulheres estão em alta?
Sempre achei que as mulheres foram aquinhoadas com os melhores papéis da dramaturgia universal. No Brasil você pode observar que tivemos a Companhia de Tonia Carrero, Companhia de Maria Della Costa, de Marília Pera, Marieta Severo, Vera Fischer. Pouquíssimos homens tiveram companhias neste País. Resultado: sempre se escreveu muito mais para mulheres. É grande a escassez de papéis importantes masculinos tanto na dramaturgia universal como brasileira. Então, quando chega um papel como esse da Moll Flanders, que é difícil de realizar mas tem todos os componentes para um belo trabalho, como é que a gente vai desprezar? É uma comédia de muita complexidade. No palco vivo a personagem dos 11 aos 70 anos.
Foi esta a forma que você encontrou para cantar ou receber os parabéns a você?
Não sei se os 50 anos é uma coisa que me preocupa muito... Acho que o trabalho me preocupa mais. O teatro é uma arte generosa, que te aceita com um ano de idade, mas se quiser você pode começar uma carreira com 70, 80 anos porque sempre haverá um avô, uma avó, um tio para fazer. O teatro não é rígido como o balé, o piano. Ele é elástico e por isso mesmo uma arte generosa. Por ser generosa é que não me detenho nos 50 anos: eu quero mais.


