Meio século de arte
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Arcangelo Ianelli, 77 anos, sintetizou meio século de carreira como artista plástico com uma exposição onde estão reunidos desenhos, pintura e escultura. Mais de 90 peças compõem a mostra que inaugura hoje, às 19h30, na Secretaria de Estado da Cultura, com a presença do artista. De uma coisa ele se ressente a cada grande exposição, o coração dá mostras de rebeldia. Saindo daqui, vou para um repouso absoluto, confidenciou aos jornalistas.
Mesmo com a saúde dando sinais de alerta, Ianelli não perde o bom humor e uma aura de serenidade como se fosse a depuração de toda uma vida. Ele explica que as diversas fases pelas quais passou se deram ao longo dos anos, não foram mudanças abruptas. O trabalho se desenvolveu dentro de certa calma, conta. A falta de pressa é uma sabedoria, pois é necessária a maturação da arte. O tempo se vinga daqueles que não o respeitaram, adverte.
A retrospectiva abre com trabalhos do final dos anos 30 e início dos 40, e avança para uma pintura nitidamente figurativa, evolui em outras linguagens até chegar nos anos 60, quando se dá, segundo o artista, sua fase de transição para o abstracionismo. A geometria e o grafismo são dessa época.
Atualmente seus quadros trazem as cores, em busca da essência pictórica. Esta nova fase é a que as pessoas acham mais fácil. Porém, nada é tão difícil como a simplicidade, comenta. Eternamente insatisfeito com sua obra não sendo assim todo e qualquer artista estará morto, decreta o pintor o que ele busca a cor, o equilíbrio, a vibração. Para isso há um trabalho detalhado de preparação das telas: primeiro ela ganha um tom pastel, depois vem a elaboração do que se deseja até a conclusão do estudo e finalmente ocorre a pintura.
Ianelli compara esse processo às anotações do jornalista que depois as transforma em notícia. Ou como uma casa: Você a vê pronta, mas não vê o alicerce. Se não houver essa construção, a de cima não resiste. No longo trajeto dos 50 anos, foram muitos os alicerces, daí que ele não renega nada do que fez:
Tudo tem importância na época em que a gente faz. Aquilo que produzi no passado, ficou como registro.
Por ter esse pensamento é que ele não aceita a crítica que comumente se faz sobre uma tendência para valorizar outra. Não há necessidade de criticar isto ou aquilo. O tempo é o melhor júri para valorizar a arte. Dessa forma, não há razão para se estabanar à procura do prato do dia, aquilo que a moda está ditando. É preciso tomar-se cuidado, pois assim sobe, cai. O artista tem que se preocupar em fazer um trabalho sério.
Em sua obra Ianelli detecta uma ligação que une todas as fases, como um fio imperceptível, desde o figurativo até o abstrato. Há uma certa coerência, orgulha-se.
Apesar da vasta produção, que inclui a escultura, também presente na mostra, ainda assim o tempo é muito curto para tudo aquilo que o pintor gostaria de fazer. Cheguei à conclusão que falta muita coisa, não fiz o bastante. O artista deveria ter três vidas: para estudar, pesquisar e realizar a obra. No ateliê não faço a terceira parte do que deveria.
A exposição retrospectiva de Arcangelo Ianelli será inaugurada hoje, às 19h30, na Casa Andrade Muricy (Rua Dr. Muricy, 24, em Curitiba), e poderá ser vista até o dia 23 de janeiro.





