Para algumas pessoas a terra natal pode representar um fardo. Um peso a ser carregado nas costas pelo resto da vida, sem descanso. Nesse caso, o exílio não eliminaria o fardo, apenas o deslocaria para a memória – o mais poderoso dos fardos.
O escritor albanês Ismail Kadaré, por exemplo, fez de seu país natal um cenário constante de seus romances. Mesmo que, em alguns casos, de maneira subjetiva. Mesmo após de 10 anos de exílio na França, permanece transformando a Albânia numa metáfora universal.
Em seu mais recente trabalho, o romance ‘‘As Flores Frias de Abril’’, Kadaré volta ao seu território de origem para mostrar como o presente pode se assustar com o passado e viver incrédulo de futuro. Escrito no ano passado, o livro acaba de ser publicado pela Editora Objetiva.
Em ‘‘As Flores Frias de Abril’’, Kadaré deixa um pouco de lado uma das principais características de sua literatura, o caráter fabular, para trabalhar com a realidade próxima. Ambienta sua narrativa nos dias de hoje, onde o fim do comunismo e o processo de democratização dos países do leste europeu é encarado com um misto de entusiasmo e receio.
O romance conta a história de Mark, um jovem pintor que vive numa pequena cidade do interior. O personagem leva uma vida dupla, de manhã ocupa um cargo burocrático de funcionário público, de tarde é um artista plástico dedicado a criar suas telas. Dupla também é sua relação com a mulher que posa para seus quadros. Em alguns momentos ela é encarada como uma modelo profissional fria, em outros como uma calorosa amante repleta de paixão.
Além do impasse amoroso, Mark acompanha de perto as transformações políticas, sociais e culturais de seu país no processo de transição do comunismo totalitário para a democracia liberal. Após 50 anos de regime comunista, a sociedade assiste com curiosidade a ocidentalização do cotidiano. Esse processo traz de volta alguns fantasmas do passado, como o ‘‘Kanun’’, um rígido código de hora. Embora pautado pela vingança através de assassinatos, ele funciona como um eficiente regulador social, de maneira geral, muito mais respeitado que o próprio Estado.
Ismail Kadaré apresenta o Kanun com mais profundidade em ‘‘Abril Despedaçado’’ (Editora Companhia das Letras, 1993), romance que deu origem ao novo filme do cineasta brasileiro Walter Salles que deve ser lançado nos próximos meses. O autor realiza um instigante retrato da força cultural do ‘‘Kanun’’. O leitor que por ventura tenha lido ‘‘Abril Despedaçado’’, terá um entendimento mais amplo de ‘‘As Frias Flores de Abril’’.
Isso porque o escritor sugere, em seu novo romance, que o renascimento do ‘‘Kanun’’, abafado durante regime totalitário, é fruto da nova condição social da Albânia. Sentindo-se livre da mão de ferro do Estado, a população realiza o desesperado movimento de procurar um outro código moral que o substitua. A desconfiança de uma ausência de controle social induz as pessoas a se agarrarem ao passado. Independente que o preço seja o derramamento de sangue de alguns cidadãos.
Escrito em 2000, ‘‘As Frias Flores de Abril’’ é uma obra sem a linearidade clássica. Ela acompanha as divagações do pintor Mark em suas alternâncias mentais frente às novas situações externas. Mesmo assim a narrativa de Ismail Kadaré, várias vezes indicado ao prêmio Nobel de Literatura, dá sinais de cansaço. Possui a intenção de espalhar vários fios pelo caminho sem conseguir, mais na frente, reatá-los com maestria.
O belo caráter fabular que o escritor imprime na maioria de seus textos aparece de maneira tímida em ‘‘As Frias Flores de Abril’’. Procurando realizar uma associação com a história narrada, coloca no interior do romance um conto fantástico inspirado na tradição do ‘‘Kanun’’. O conto apresenta a fábula de uma mulher que, devido a uma vingança familiar, é obrigada se casar com uma serpente para anular o erro de seu clã.
Resignada, ela aceita a pena. O que seria um sofrimento, torna-se uma dádiva. Isso porque a serpente, no leito de núpcias, se converte num belo rapaz enfeitiçado que deixa sua pele de cobra de maneira mágica. A dualidade do marido permanece em segredo até o dia em que a esposa resolve colocar um fim na situação. Entre matar o lado humano ou o lado serpente, opta por dizimar o animal. Como os dois lados estão interligados, a perda de uma parte representa a perda do todo. Trata-se de um conto recorrente em várias culturas, onde a vida, ou mesmo a morte, não é constituída por simples pedaços.
As Frias Flores de Abril – De Ismail Kadaré, Editora Objetiva, tradução de Ana Luiza Dantas Borges, 176 páginas, R$ 21,90.

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