Medo de avião atinge 45% dos passageiros
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terça-feira, 14 de setembro de 2004
Cristiana Oliveira<br> Agência Estado 
São Paulo - Tudo pronto para a viagem. Reservas confirmadas, malas prontas e bilhete aéreo em mãos. Como é boa a sensação de sair da rotina, pegar um avião e em poucas horas pousar em novas terras e curtir um lugar bem diferente daquele a que se está acostumado. Muitas pessoas esperam um ano inteirinho por essa chance. Outras até têm mais oportunidades dentro da profissão. O detalhe é que entre os 50 milhões de brasileiros que viajam de avião anualmente, em média, cerca de 45% têm medo de voar.
''Tomei um copo de uísque às 7 da manhã antes de seguir para o aeroporto'', conta a secretária-executiva Zilma Soares da Silva, lembrando-se da viagem de férias com o marido para Fortaleza, no Ceará. Embora ela tenha muito medo, já encarou o desafio algumas vezes, principalmente porque o maridão ameaçou viajar sozinho. ''O problema é que agora ele quer conhecer o Canadá'', antecipa Zilma, toda amedrontada.
O medo de voar, que também atende por aerofobia, é classificado por especialistas como mais um dos problemas da modernidade. Ele pode estar associado a outros tipos de fobia, principalmente de altura e de lugares fechados, e se manifesta de várias formas. Desde sensações como um simples mal-estar até a negação total de encarar a viagem. ''Cada pessoa é uma pessoa e cada fobia ou medo tem sua razão de ser, de acordo com a história de cada um'', explica a psicóloga Mirella Castro, do Instituto Latino-Americano de Programação Neurolinguística. O problema não é o medo em si, mas a sua potencialização, que chega a impedir o sujeito de viajar.
É medo de turbulência, do barulho das turbinas, da despressurização da cabine, do piloto... Logo no check-in as mãos ficam trêmulas e frias. As pernas parecem que não sustentarão o corpo. De tão arregalados, os olhos faltam saltar do rosto que já está pálido. Isso sem contar a taquicardia e até tontura.
São sensações incontroláveis, que só fazem criar expectativas negativas. ''Medo é normal, faz parte das defesas'', diz o psicólogo e professor da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC), Antonio Carlos Amador Pereira. O que se deve fazer é procurar relaxar, focar a atenção nos aspectos positivos da viagem, pensar no que se vai fazer quando chegar ao destino, conversar com outras pessoas, ler um livro engraçado, ouvir música suave e desanuviar o pensamento. ''Não se trata de não pensar, se trata de focar o olhar em coisas positivas'', explica o psicólogo.
A prática de relaxamentos somada a informações sobre aviação e a técnicas de controle sobre pensamentos desesperados ajudam passageiros novatos ou veteranos. Afinal, o medo de voar não pode prejudicar a vida profissional ou pessoal de quem o enfrenta.
Depois de fazer muitas viagens ao longo de sua carreira, o sanfoneiro Dominguinhos, de 63 anos, decidiu há 18 que não quer mais pisar num avião. Ele, que já chegou a fugir de um aeroporto durante um check-in, conta que certa vez entrou num avião com destino a Fortaleza, no Ceará, e se deparou com um clima tenso. ''Era um tal de criança chorando e gente brigando por causa de assento'', contou. ''Resolvi sair do avião.'' Dominguinhos já recusou convite para se apresentar na Europa e nos Estados Unidos. ''Se fosse possível eu iria de navio. Assim já viajaria cantando'', diz.
Para essas pessoas, cada minuto parece uma hora. Para evitar viagens aéreas, um dos truques de Zilma aquela mesma, que está apavorada com a idéia de ir para o Canadá é planejar e sugerir roteiros de carro sob o argumento, válido, de curtir o trajeto fazendo paradas para conhecer as paisagens e cidadezinhas do caminho. A estratégia funcionou bem uma vez, mas nas férias seguintes... Não teve jeito, seu marido decidiu ir para Maceió, em Alagoas. ''Na véspera eu não consegui me concentrar no trabalho e até achei bom ter insônia para poder dormir durante o vôo'', conta. ''Mas fiquei estática na poltrona'', resume.
Conhecer o funcionamento de um avião, ter consciência de que os problemas são previsíveis e de que existem funcionários altamente treinados são alguns dos argumentos usados para garantir a segurança do passageiro. A Fundação Valk, uma instituição holandesa, apresentou recentemente um estudo realizado com 5 mil pessoas e voltado para o combate do medo de voar. Os resultados apontaram que a ala feminina teme perder o controle de suas emoções e, principalmente, que o avião caia. Já na ala masculina o medo é de altura e de não poder controlar a aeronave. A boa notícia para todos é que, ainda segundo a pesquisa, em 98% dos casos é possível acabar com essa fobia.
Embora o argumento seja batido e talvez já não funcione para minimizar o medo, ainda vale: avião é, estatisticamente, o meio de transporte mais seguro que existe. A média mundial de acidentes nos últimos 10 anos é de 1,2% por milhão de decolagens.
Fora isso, milhares de pessoas estão envolvidas num trabalho incessante de controle de segurança das operações aéreas. A manutenção das aeronaves é feita diariamente e acompanhada por técnicos e fiscais do Departamento de Aviação Civil (DAC). Também é fiscalizada a validade da documentação dos pilotos, que são submetidos a diversas situações de emergência em simuladores.
Além de toda a tecnologia das aeronaves e do treinamento longo e específico dos pilotos, dos comissários e dos mecânicos existem as pessoas em terra que controlam e acompanham por radar todo o trajeto do avião. Então... vale a pena relaxar e dar asas à liberdade.


