Medida divide opiniões no meio cultural
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de setembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>De Veneza<BR>Especial para a Folha 2 
Qual o perfil do grande, imenso Vittorio de Sica que prevalece neste momento em que o mundo do cinema comemora cem anos de seu nascimento? Com certeza o que lhe deu mais prestígio: o cineasta que endereçou um singular olhar poético sobre as asperezas da vida cotidiana em filmes tão notáveis como ''Ladrão de Bicicletas'' e ''Umberto D''. Mas também haverá um lugar para quem, antes ou depois desses momentos de maior inspiração, deixou um rastro de talento, como diretor ou como ator, em dezenas de títulos que evidenciavam uma aguda percepção do sentimento popular, uma visceral humanidade, uma indestrutível confiança nos vínculos sustentados pelo afeto e pela solidariedade.
O Festival de Veneza não se esqueceu dele. E a memória é presente em dois momentos especiais. Sem uma ruga ou qualquer outra marca, está sendo projetada até sábado, em sessões e horários diversos, uma cópia nova em folha de ''Duas Mulheres''(La Ciociara ). Há pouco tempo restaurada pela produtora Mediaset e a Fundação Scuola Nazionale di Cinema, esta edição impecável da obra-prima foi apresentada pelo diretor do festival, Alberto Barbera, que justificou a ausência de Sofia Loren, Oscar pela atuação.
O filme santificou definitivamente a até então apenas opulenta napolitana. Antes da projeção está sendo exibido ''La Ciociara 40 anni doppo'', um vídeo contendo entrevistas com o compositor Armando Trovajoli, o ator Raf Vallone e a atriz Eleonora Brown, que faz a filha do personagem de Sofia e que veio a Veneza para a exibição.
A outra homenagem a De Sica é um documentário-ficção, ''Vivere'', dirigido por Franco Bernini. No filme, feito para a tevê, é reconstituído um episódio pouco conhecido da vida do diretor. O ano é 43, a cidade, Roma. Vittorio De Sica ainda não é o aclamado mestre do Neo-Realismo. Mas sua fama de ator (e de cantor: ''Parlami d'amore...'') chega aos olhos e ouvidos de um homem esperto, Joseph Goebbels, que já compreendeu como é eficiente e temível a máquina de guerra aliada que dispara a 24 quadros por segundo. O dirigente nazista manda uma carta ao comando alemão em Roma. Na verdade uma ordem, convocando o ator. Ao que tudo indica, um fato verídico.


