Médico revela o outro lado do presídio em "Estação Carandiru"
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quinta-feira, 17 de junho de 1999
Por José Castello 
São Paulo, 18 (AE) - Há exatamente dez anos, o médico paulistano Drauzio Varella, cancerologista de prestígio formado pela Universidade de São Paulo (USP), resolveu embrenhar-se no inferno. Engajou-se num trabalho voluntário de preservação à aids na Casa de Detenção de São Paulo, o célebre presídio do Carandiru, complexo penitenciário a dez minutos da Praça da Sé, em que vivem amontoados 7 mil homens. Essa aventura corajosa está relatada, agora, em "Estação Carandiru", (Companhia das Letras, 304 págs, R$ 26), um livro de histórias, não de medicina
escrito em estilo direto e com tonalidades machadianas, que vem desmentir grande parte dos mitos que, ainda hoje, a sociedade cultiva a respeito da vida nas prisões.
Os detentos recolhidos no Carandiru formam aquilo que, na gíria das prisões, se costuma chamar de "a malandragem", isto é, uma elite de criminosos que a sociedade, numa mistura de medo e desprezo, encarcera na categoria de "monstros". Drauzio Varella mostra que, ao contrário, o presídio abriga um amálgama heterogênio de homens, obrigados a se suportar em condições insuportáveis, e que por isso se protegem com hierarquias e leis draconianas. Se no mundo externo cada vez mais o que vale é a força, no presídio ainda é a palavra. Drauzio Varella age como um retratista: limita-se a mostrar o que vê, sem atribuir valores morais, sem interpretar, sem julgar, e por isso escreveu um livro impecável. Pergunta - A sociedade vê os presídios como um mundo caótico. Que visão alternativa seu livro oferece? Drauzio Varella - Eu também achava que os presídios eram um mundo sem lei, habitado por criminosos selvagens. Minha experiência no Carandiru mostrou que, ao contrário, as leis existem sim nos presídios e são até mais rígidas do que as nossas aqui fora. No presídio, crime não prescreve, você faz e é castigado, não existe atenuante. E há uma biodiversidade enorme - a gente, de fora, prefere igualá-los e acreditar que são todos uns monstros. Não é assim: não se pode comparar um estelionatário com um assaltante, ou um ladrão de banco com um traficante de cocaína. Pergunta - Parece ser, no entanto, uma lei brutal e totalitária. Varella - É uma lei draconiana, sim, criada pela restrição do espaço. Sempre que há restrição do espaço, a violência diminui. Há muito menos violência, por exemplo, em Tóquio do que em São Paulo. A restrição do espaço produz leis próprias. Quanto mais se restringe o espaço, mais fortes e inexoráveis são as leis. Pergunta - O sistema de hierarquias também parece ser bem mais complexo do que imaginamos. Varella - É verdade. Mas no presídio, ao contrário do que se imagina, essa hierarquia não é estabelecida pela força física. Na rua, você é mais forte, então bate e vai embora. Na cadeia, se o mais forte bate, depois não tem para onde fugir. Uma hora ele dorme, ou ele está de costas, e se vingam. Então, no presídio, a hierarquia não é estabelecida pela força, mas pela capacidade de criar coalizões. O poder está com os que conversam
falam pouco e ouvem muito. Pergunta - Existe solidariedade na prisão? Varella - Sim, e uma solidariedade muito forte, não vejo fora do presídio nada igual. O cara fraquinho, doente, tem apoio dos outros, eles o pegam no colo, o levam para o pátio para que tome sol. Os paraplégicos na cadeia são muito paparicados. O elevador está quebrado? Eles o carregam nos braços, descem com ele as escadas, depois o trazem de volta. Você nunca vai ver alguém bater num paraplégico, fazem mal a ele. Pergunta - Como os presos se comportam hoje em relação à aids? Varella - Houve duas fases. Até o início dos anos 90, predominava a cocaína injetal e, nessa fase, um grande número de presos se infectou. De 92 para cá, o crack entrou nas prisões. Houve então um breque na propagação da doença. Felizmente, a cocaína injetável caiu para zero. Pergunta - E como eles lidam com os aidéticos? Varella - Os presos não têm um saber teórico sobre a aids, lá a doença está completamente visível. Eles vêem aquelas pessoas iguais a eles que, de repente, ficam caquéticas e morrem. Não podem negar a aids. Então, chegam a fazer campanha de combate à doença. Como tudo na cadeia, são campanhas muito autoritárias. Na época da droga injetal, esses usuários eram vítimas de grandes preconceitos. Eu sei, é algo criticável, mas lá funcionou bem. Lá você não pode chegar e dizer "não use droga"
é ridículo dizer isso na cadeia, então eu dizia, "não injete nada na veia" e isso reforçava sim o preconceito contra os usuários de seringas, mas ajudou a protegê-los. Pergunta - Como os presos o vêem? Varella - Tenho dificuldades de saber. Tento sempre mostrar que não sou eu, o médico, que curo, é a medicina, não sou eu que faço, é a profissão. Mas a medicina, quando praticada nesse nível bem primitivo, carrega com ela uma impressionante aura de mistério. O impacto que a figura do médico provoca nos setores humanos e nas pessoas doentes em geral, lá toma dimensões inestimáveis. Pergunta - A malandragem é um obstáculo? Varella - A malandragem está sempre presente. O ditado que cito na abertura do livro, "Numa cadeia ninguém conhece a moradia da verdade", define isso muito bem. Dentro do presídio, você nunca sabe de que lado está a verdade. São presos que simulam doenças, são atores excelentes, fingem maravilhosamente bem. Eu tento ser racional. É uma coisa difícil, porque essa atitude do sujeito que desconfia é incompatível com a figura do médico. O médico-policial é um personagem inviável. Pergunta - Qual é o principal valor dentro da cadeia? Varella - A palavra. Na cadeia, você não pode trair, a palavra no presídio tem um peso muito forte. Fora de lá, isso se perdeu, hoje com muita tranquilidade se promete uma coisa e não se cumpre, mesmo quando existe um contrato assinado. Já na cadeia, o que faz um homem ser respeitado é a palavra, não a força física. A força física na cadeia não é a força muscular, é a força do grupo; e para chefiar, você precisa da palavra. Isso é muito bonito, é a palavra que vale. Pergunta - A experiência no presídio mudou sua visão da medicina? Varella - Mudou, para começar, o entendimento que eu tinha da medicina. Percebi melhor o impacto da figura do médico. Ali você está tratando uma pessoa que tem dependência total de você, para ela ou é você, ou ninguém. Na vida comum, você pode morrer, o doente corre para outro médico, na cadeia isso não é possível. Pergunta - É possível exercer a medicina em tais condições? Varella - Sim, num presídio você faz medicina com o estetoscópio na mão, e só. Não tem exame de laboratório, não tem tomografia, é uma forma primitiva de fazer medicina. E você é obrigado a estudar coisas que normalmente não estuda. No consultório, o doente vem com um problema dermatológico, eu mando para um dermatologista; lá não, eu mesmo tenho de tratar, e isso exige novos conhecimentos. Pergunta - É curioso porque, ao contrário do que se espera, seu livro não traz muitas cenas violentas. Por quê? Varella - Não me ative à violência na cadeia, embora ela esteja presente todo o tempo. Tentei mostrar, ao contrário, que o convívio com o restrição de espaço reduz a violência. Pegue uma favela como o Morro do Alemão, no Rio. Num universo, digamos, de cem bandidos, num fim de semana morrem pelo menos duas ou três pessoas. Já no Carandiru, onde estão reunidos 7 mil presos, quantos vão morrer neste fim de semana? Nenhum. Imagine milhares de sujeitos, trancados meses a fio com desconhecidos e ninguém mata ninguém. Para mim, isso é um enorme mistério. Pergunta - Seu livro pode ser entendido como uma defesa dos presos? Varella - Os presos não são animais, são homens como nós. Bons e maus homens, não estou julgando os valores, muitos merecem estar lá e muitos até mereciam mais do que isso. Sou contra a impunidade, ela é a principal causa da violência social em que vivemos, mas nem por isso igualo aqueles homens. Apesar de tudo, alguns deles são até mesmo homens que você aprende a respeitar e a gostar.


