Medeski, Martin & Wood trarão avant jazz ao País
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de agosto de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 26 (AE) - As novíssimas correntes do jazz desembarcam com força total no Brasil na próxima edição do Free Jazz Festival, em outubro. Além do grupo de vanguarda nova-iorquina Soul Coughing, chega também o power trio Medeski, Martin & Wood, uma das mais festejadas combustões do jazz e do pop da atualidade.
"Os roqueiros dizem que nós somos jazz, os jazzistas dizem que nós somos rock", disse o tecladista John Medeski, em entrevista por telefone à AGÊNCIA ESTADO ontem, de Nova York. "Eu, sinceramente, prefiro não tentar dizer o que somos."
Medeski, mais o baterista Billy Martin e o baixista Chris Wood formaram o trio de avant jazz em 1991. Desde então, já abriram turnês para o grupo Phish, tiveram um disco (Combustication) mixado por gente como a tecladista Yuka Honda (da banda Cibo Matto, namorada de Sean Lennon), Bill Laswell, Guru e DJ Logic e acabam de fazer a "cozinha" sonora para o novo CD do avô do punk rock, Iggy Pop.
"Iggy é realmente brilhante, cheio de energia e muito espontâneo", disse Medeski. "Não é duro como um punk, como muita gente pensa, mas tem um espírito livre, poderoso", acrescentou Medeski, que nos shows da banda costuma tocar um órgão Hammond e pianos elétricos.
História agitada - Com formação clássica de composição e teoria musical, John Medeski tem uma história agitada. Tocou com Mark Murphy e Robert Thomas Jr. e chegou a ser convidado pelo papa do baixo, Jaco Pastorius, para integrar sua banda durante uma turnê pelo Japão, em 1981. Mas, ainda menor de idade, foi impedido pela mãe de embarcar.
"Eu tenho atração forte pelos improvisos do jazz, mas acho que toda música nos influencia de alguma maneira, do samba brasileiro à música afrocubana", confidencia Medeski. "Como músico, eu apenas tento ser honesto e sentir realmente o que estou tocando", afirma.
No início dos anos 90, o tecladista tocou também com John Zorn durante algum tempo e gravou com Prince Paul, da banda Blues Traveler, e com o lendário guitarrista John Scoffiel (no disco "A Go Go", pelo selo Verve). Festejam da música folk de Nova Orleans à maestria de Oscar Peterson e Cecil Taylor.
Mas uma das grandes excentricidades do grupo nem foi incluir no repertório o clássico havaiano "No Ke Ano Ahiahi" nem tampouco ter feito uma cover do funk "Everyday People", de Sly Stone. Foi ter integrado (Medeski e o baterista Billy Martin) a banda Lounge Lizards, do controverso saxofonista John Lurie.
"Acho Lurie um verdadeiro artista, é criativo e tem um trabalho forte", afirmou Medeski, rindo. Ele sabe da fama de criador de encrencas de Lurie e seus embates com a imprensa. "Isso sempre acontece; ele gosta de inventar dramas", diz.
Medeski lamenta muito particularmente a morte do músico Mark Sandman, da banda Morphine, e ficou consternado quando soube que eles também se apresentariam no Free Jazz deste ano. O Morphine acabou. Medeski conta que toca, como convidado, no último disco do grupo, que está para ser lançado.
Reverência a brasileiros - A música brasileira, definitivamente, não é estranha ao trio americano. O baterista Billy Martin tocou durante dois anos com o grupo Batucada, de Manoel Monteiro, brasileiro radicado em Nova York. Tocou também com Cyro Batista e estudou a fundo a percussão brasileira, o que
segundo diz, abriu seus horizontes para uma concepção diferenciada de ritmo. Com veleidades teóricas, está atualmente empenhado em escrever um livro chamado Rhythm e uma série de ensembles de percussão.
Segundo Medeski, os três guardam uma reverência toda especial pelos ritmos brasileiros, que se acostumaram a ouvir com a grande colônia de músicos nacionais de Nova York. Adoram capoeira. "O Brasil tem uma das mais importantes músicas do mundo", diz Medeski. "Sinceramente, esperamos que também gostem da música que fazemos."
O baixista Chris Wood, nascido em Boulder, no Colorado, estudou baixo clássico e composição. Foi colega da indomável baterista Geri Allen no New England Conservatory of Music em Boston, em 1989.
Wood começou produzindo shows de bandas em Denver, no mesmo Estado natal. Por meio do jazzista Bob Moses, ele conheceu John Medeski, passando a tocar com o tecladista. No meio disso, ele computa turnês com gente como o guitarrista Marc Ribot e os Jazz Passengers. Confessa-se enormemente influenciado por Charles Mingus e Fred Hopkins.
Medeski, Martin & Wood gravaram o primeiro disco, "Notes from the Underground", em 1992. Ali, havia uma homenagem a uma de suas influências, Wayne Shorter, nas faixas "Orbit" e "United". Depois, pelo selo Grammavision, gravaram três álbuns - "Its a Jungle in there" (1993), "Friday Afternoon in the Universe" (1994) e "Shack Man" (1996). Assim como o Soul Coughing, emplacaram no circuito alternativo nova-iorquino.
O disco mais recente, "Combustication", recebeu uma versão remix muito festejada nas pistas, que traz uma míriade de modernos "relendo" o som já pouco definido do MM&W. "Adorei as versões", confessa Medeski, vaidoso. "É um grande elogio ver outras pessoas fazendo sua interpretação do trabalho que realizamos."
Mas Medeski alerta: que os brasileiros não esperem uma banda de pop stars em cena. O Medeski, Martin & Wood é apenas uma banda de jazz e grupos de jazz não têm essa dimensão nem nos Estados Unidos. Eles demoraram para ser aceitos nos mais exclusivos clubes de jazz de Nova York. Tiveram de vencer uma desconfiança inicial.
Vivem de tocar em festivais de rock, cafés e pequenos clubes. No domingo, estarão em Willisau, na Suíça. No dia 18, são convidados do Monterey Jazz Festival, em Monterey, Califórnia.


