MAZZA, O IMORTAL
Luiz Geraldo Mazza vai ocupar a cadeira número 20 da Academia Paranaense de Letras
Zeca Corrêa Leite

Mauro FrassonLuiz Geraldo Mazza: ‘‘Eu tinha uma resistência muito grande à idéia de protocolo, da formalidade que vira formol’’Ah, essas ironias da vida... O jornalista Luiz Geraldo Mazza, 48 anos de profissão, e com séculos de histórias armazenadas em suas lembranças, quando jovem era daqueles que sistematicamente martelava nas teclas das velhas máquinas de escrever artigos contra a Academia Paranaense de Letras. ‘‘Fizemos campanhas pesadas aqui em Curitiba, éramos contra qualquer tipo de cultura oficial’’, conta ele, rememorando a luta empreendida entre amigos. Na terça-feira passada o jornalista foi eleito membro da Academia.
‘‘O que nós não tínhamos na juventude e que sobra nos velhos é a generosidade’’, comenta Mazza. Como o sufrágio aconteceu há poucos dias, ainda não foi definida a data de posse. Comentarista político e conselheiro de administração da Folha, o jornalista estará ocupando a cadeira número 20 da Casa, que ficou vaga com a morte de outro profissional da imprensa, Samuel Guimarães da Costa. Ário Dergint ocupará a cadeira número 9, que pertencia ao escritor Vasco José Taborda.
A vida muda os pontos de visão, compreensão e mentalidade das pessoas. Não fosse assim Luiz Geraldo Mazza com certeza jamais aceitaria ser cidadão honorário de Curitiba, recebendo o diploma com todas as pompas devidas. Em 1954, para se ter idéia de como era turrão, deixou de ir à sua formatura na Faculdade de Direito porque brigou com os colegas. O motivo: as eleições no diretório acadêmico. ‘‘Fui me formar em gabinete, longe da festa. Eu tinha uma resistência muito grande à idéia de protocolo, da formalidade que vira formol.’’
A decisão levada ao pé da letra quebrou o sonho da mãe em ver o filho recebendo o diploma do ensino superior. ‘‘Criei um dissabor a ela’’, diz ele, mais de 40 anos passados. Porém, em 1985, quando completou 35 anos de jornalismo, viu passar à sua frente um carinho que talvez jamais houvesse imaginado: uma enorme festa preparada pelos amigos. O jornalista Valério Fabri, o cartunista Dante Mendonça e muitos outros prepararam o ‘‘Baile do Mazza’’ no Clube Concórdia.
‘‘Havia dois ministros de governo, autoridades em peso, toda a imprensa estava lá representada; orquestra tocando música dos anos 50: um sucesso’’, relata o homenageado. Nesse contexto ‘‘indicaram e votaram a toque de caixa na Câmara o título de Cidadão Honorário de Curitiba. Isso fez parte das comemorações. Quase me mataram de emoção’’.
Pois bem, o novo acadêmico sabe para onde está indo. Para ele, a casa da rua Fernando Moreira não se apresenta mais como o símbolo da coisa envelhecida, onde seus membros, cujas conversas e pausas refletem um outro ritmo, outro tempo de vida, ocupam-se de conversas ressequidas, emboloradas. Nada disso. A atualidade pulsa ali dentro, as atividades têm mão dupla num ir e vir constante. Inclusive ali estão mais três colegas da turma de 54 (cuja solenidade ele perdeu): Leopoldo Scherner, Edilberto Trevisan e o presidente Túlio Vargas.
‘‘Esse pessoal está internado no tempo? Não estᒒ, rebate. E se é para falar de vanguardismo ou ousadia, o que dizer de Vasco Taborda que ele encontrou um dia na Praça Osório fazendo discurso para a estátua de Emílio de Menezes? Ao lado do poeta estavam uns quatro, cinco colegiais. Certamente não esquecerão aquele momento de desatino e coragem. ‘‘Quem somos nós para julgar essa gente?’, indaga Mazza.
Ele percebe hoje que aqueles tempos ardentes de juventude, quando a Biblioteca Pública do Paraná centralizava desde cursos de iniciação musical a artes plásticas e debates de cinema, de certa forma caminham paralelos com o que se faz hoje na Academia. ‘‘Ali, todo dia tem alguma coisa. É um espaço destinado às artes e ao pensamento, e é importante que seja ocupado. Não adianta criar-se espaços culturais como Curitiba criou para, de repente, serem tomados pela burocracia’’, alfineta.
Daí vem o acomodamento, cada um defendendo seu emprego. Das unidades que aí estão, ‘‘nenhuma é capaz de dar o retorno que Rafael Greca deu quando dirigiu a Casa Romário Martins’’, emenda Mazza. Outro de seus dons: envolver um assunto noutro e desfiar todo conhecimento armazenado. Aliás, essa característica muito própria do jornalista de passear pelos mais variados terrenos, traz a ele sempre a mesma cobrança: por que não colocar todos esses episódios em livro?
Mazza até que se sente tentado, mas reclama da falta de tempo. Atuando em diversos veículos da imprensa - já fez televisão e no momento divide-se entre a rádio CBN, a Folha e demais publicações - não há condições de organizar suas lembranças. Se o fizesse, não seria pelos lados da política, que conhece como poucos.
Iria trazer à tona a Curitiba desvairada, com seus tipos loucos e faceiros, diferente daquela congelada nos ‘‘clichezões’’. Se um dia anunciar um livro do gênero, nenhuma surpresa. Serão as lembranças de um homem que quando imaturo perseguia acadêmicos, e que na maturidade é o mais notório jornalista paranaense, a ampliar um pouco mais a história de uma cidade que ele ama, e cuja retribuição vem na mesma moeda.

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