Max Overseas reabre o Ouro Verde
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2003
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
A história do malandro Max Overseas que sempre seu deu bem na vida e agora, mais velho e na solidão, se depara com os fantasmas do passado, será levada ao palco por uma trupe de atores e músicos londrinenses no espetáculo cênico-musical ''O Velho Malandro''. A estréia acontece hoje, às 21 horas, com reapresentação amanhã. A montagem marca a reabertura ao público do Cine-Teatro Ouro Verde, que esteve em reforma no ano passado.
O elenco reúne artistas de diferentes gerações e experiências. O protagonista é interpretado pelo ator Apolo Theodoro, que contracena com Eric Mago (no papel de Jovem Malandro), Camila Fontes (Lúcia e Escritor) e Carla Dyacov (Tempo), que também assina a direção geral. Além dos atores, sete músicos estarão em cena. A produção, a cargo de Cristina Tonin, foi realizada através do projeto aprovado em 2002 pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura.
A proposta de fazer ''O Velho Malandro'' nasceu de uma idéia de Cristina Tonin e Eduardo Brancalion. O que inicialmente seria um show com canções da ''Ópera do Malandro'' ganhou uma dimensão maior com o projeto do espetáculo cênico-musical.
O texto, escrito pelo jornalista Paulo Briguet, é uma hipótese crítica e bem humorada do que teria acontecido com Max Overseas se ele estivesse vivo e com mais de 90 anos. Max é o protagonista da ''Ópera do Malandro'', obra de Chico Buarque, que foi ''emprestado'' por Briguet para viver uma aventura nos dias atuais. ''Dos personagens da 'Ópera do Malandro', restaram somente nomes, vestígios, obscuridades, fantasmas, retratos falados'', diz o autor.
Na obra de Chico Buarque, Max é um malandro elegante e popular do bairro carioca da Lapa da década de 40, ídolo dos bordéis, que explora uma cantora de cabaré e vive de pequenos golpes. A peça retrata a malandragem brasileira numa trama de intrigas protagonizada por malandros, prostitutas, contrabandistas e policiais. Buarque se inspirou na ''Ópera do Mendigo'', de John Gay, e na peça ''A Ópera dos Três Vinténs'', de Bertold Brecht e Kurt Weill.
Agora a história continua. Mas em versos e sob outro foco. ''Meu nome é Max, eu sei, o malandro que outrora fazia pouco da lei e vivia na pletora. Hoje passei dos 90 e neste boteco nojento passo todas minhas horas'', diz o texto de Briguet. Em sua primeira experiência dramatúrgica, o jornalista apostou na forma da literatura de cordel para contar a história, escrevendo oito cenas intercaladas às músicas de Chico Buarque. ''Procurei não misturar meu trabalho com a peça do Chico, por respeito. As músicas estão intactas, mas a peça é outra. Escrevi um texto despretensioso, procurando palavras simples para fazer as rimas'', avisa Briguet, que também é autor dos livros ''Diário de Moby Dick'' (com Paulo Lourenço) e ''Repórter das Coisas''.
A diretora Carla Dyacov avalia que o elenco conseguiu dar organicidade ao texto em versos. ''Não enfatizamos a rima. Os atores trabalham com vários timbres e nuances de voz, brincando com as palavras'', explica.
A história é ambientada em um boteco abandonado, que guarda no baú da memória os delírios de um personagem saudosista. ''Abrimos o espetáculo para várias leituras do público'', antecipa. ''A peça mostra a dualidade do novo (a consciência) e do velho (o 'descartável'), com a intervenção do Tempo, que está aí para levar Max embora'', antecipa.
O autor revela que as cenas são alucinações de Max, que é visitado por fantasmas do passado. ''Uma dessas visitas é a do Tempo, que trava um duelo com o Velho Malandro. A disputa revelará quem pode mais'', comenta Briguet. O autor instrumentalizou o protagonista para esse duelo. ''A grande arma do malandro é a palavra'', diz. A peça usa a simbologia do jogo de sinuca para falar da vida.
Para o ator Apolo Theodoro, o Velho Malandro concentra toda a mensagem da peça. ''Por mais que ele esteja na pior situação, a leitura é que ainda vale à pena levar as coisas adiante. Dar um baile no tempo e seguir em frente. É o velho jeitinho brasileiro'', comenta. ''A grande frustração do Malandro, que sempre foi 'o bom', é a impotência. Essa é a loucura dele. Por isso ele sonha, dialoga e duela com o tempo''.
O espetáculo traz 10 canções da ''Ópera do Malandro'': ''Hino de Duran'', ''Homenagem ao Malandro'', ''Geni e o Zepelin'', ''Terezinha'', ''Pedaço de Mim'', ''O Malandro nº 2'', ''O Meu Amor'', ''Tango do Covil'', ''Se Eu Fosse Teu Patrão'' e ''Meus 12 Anos''. As músicas serão interpretadas ao vivo por uma banda que divide o palco com os atores. No vocal, estão Júlio Anizelli e Cris Tonin; no violão e guitarra, Eduardo Brancalion; no contrabaixo, Filipe Barthem; no piano, teclados e escaleta, Alex Corrêa; na percussão, André Vercelino, e na bateria, Rodrigo Serra. Eric Mago faz uma participação em ''Terezinha'', tocando flauta transversal. O espaço da música também se mistura com o do teatro: atores cantam e músicos interferem nas cenas.
Os arranjos foram feitos especialmente para a peça pelos músicos Filipe Barthem e Alex Corrêa. ''Alguns arranjos permitiram grandes variações nas músicas. 'Geni' e 'Terezinha', por exemplo, ganharam outra concepção'', diz Alex Corrêa. ''Essas músicas tiveram inserções de gêneros diferentes. 'Geni' virou um heavy metal'', cita. Além do samba, a trilha é embalada com bossa, reggae, tango, salsa e balada.
SERVIÇO:
''O Velho Malandro'', espetáculo cênico-musical. Hoje e amanhã, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85), em Londrina. Duração: 1h15. Texto: Paulo Briguet. Direção geral: Carla Dyacov. Assistência: Camila Fontes. Direção musical e produção: Cristina Tonin. Arranjos: Alex Corrêa e Filipe Barthem. Cenário: Carla Dyacov. Criação do letreiro do bar: Thaís Dalla Zanna. Figurino: o grupo. Iluminação: Jullian Sônego. Patrocínio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Ingressos: R$ 5,00. Venda antecipada: Padaria Harmonia (Av. Rio de Janeiro, 1339), MPB Bar (Av. J.K., 426), loja Strawb's (Rua Belo Horizonte, 1425) e no Cine Teatro Ouro Verde.


