Mautner no plural
Nelson Sato
De Londrina
Todos os rótulos desabam, um a um, diante de Jorge Mautner. Mas empilhá-los sempre foi um recurso usado pela crítica para evitar o comentário, reproduzir a reverência ôca e perpetuar a folclorização do personagem.
Música, literatura e filosofia mesclam-se na trajetória do artista compondo uma obra tão vasta quanto desconhecida do grande público. Desconhecida, enigmática e indecifrável acrescenta ele, por telefone, de sua casa no Rio de Janeiro. Mautner, 59 anos, está comemorando quatro décadas de carreira com o lançamento do CD duplo O Ser da Tempestade (Dabliú).
O disco reúne 28 faixas, nenhuma inédita. O primeiro volume traz canções de várias fases de sua carreira em sua própria voz. O segundo compila músicas de sua autoria interpretadas por terceiros. Além do álbum, ele festeja a data com uma exposição de 40 telas em acrílico, que pretende transportar para todas as cidades em que fizer shows nesta temporada.
A mostra já foi vista na Funarte em São Paulo. No próximo dia 23, poderá ser apreciada pelos cariocas quando ele, Tom Zé, Celso Sim e outros artistas se apresentarem na casa noturna Mistura Fina. Mautner anda empolgado, talvez nunca tenha saudado com tanta euforia a passagem de ano. A partir do mês que vem ganha espaço fixo na televisão.
Vou ser o presidente vitalício do júri do programa Musikaos, na TV Cultura anuncia ele. Musikaos, comandado pelo ex-VJ da MTV Gastão Moreira, será uma espécie de segunda dentição do Fábrica do Som, programa que fez a cabeça de toda uma geração nos anos 80. Mautner vai emprestar a música Cinco Bombas Atômicas, incluída no CD duplo, para a abertura da nova atração da telinha.
Atropelado pelas boas notícias, ele conta que a Imprensa Oficial do Rio de Janeiro anunciou a reedição já neste primeiro semestre de suas 11 obras literárias passando a limpo desde o título de estréia Deus da Chuva e da Morte (publicado originalmente em 1962 e ganhador do Prêmio Jabuti) ao romance Miséria Dourada (lançado em 1993).
Já não posso me considerar maldito brinca ele. Recebi essa homenagem do governador do Rio, mas me sinto honrado também com o convite do Ministro da Educação para participar de uma campanha nacional de incentivo à leitura e à escrita ao longo desse ano. Estou à disposição. O reconhecimento do mercado, contudo, ainda não bateu à sua porta.
A vendagem dos livros é mínima, e seus dez discos mal ganharam distribuição nacional. Curiosamente, algumas de suas composições emplacaram nas paradas, mas sempre em vozes alheias. As únicas exceções talvez tenham sido Bem Te Viu, Bem Te Vi (com a qual participou do festival Abertura, da TV Globo, em 1974) e Sobe Cobra Encantador de Serpentes (parceria com Robertinho do Recife que virou trilha de um comercial da griffe Triton, em 95).
Não tenho explicação para isso diz ele. É uma estranheza que mantenho, uma autenticidade, uma forma anasalada de cantar que remete a cantores antigos como Jorge Veiga, Aracy de Almeida e outros. Mas há muita gente que prefere minhas intepretações às versões. Aliás, pouco a pouco gosto cada vez mais de minha voz.
No CD duplo que está lançando, seu estilo peculiar de canto grave e gritinhos agudos pode ser conferido em faixas como Cachorro Louco, Samba dos Animais e O Relógio Quebrou. A antologia passeia por vários ritmos abrangendo samba-canção, blues, maracatu, funk, folk-rock, fado e até música de circo. A escolha do repertório foi feita em parceria com Paulo Euzébio Sobrinho, responsável também pela masterização e edição final do trabalho.
O encarte traz textos de apresentação de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zé Ramalho e Geraldo Carneiro. O disco inclui Olhar Bestial, a primeira composição de Mautner, feita aos 17 anos. Apresenta também Não, Não, Não, a primeira que ele gravou. A faixa foi lançada em 1965 num compacto simples pela extinta RCA Victor, que trazia no outro lado a canção Radiatividade. É bom lembrar que foi este compacto, juntamente com meu livro Vigarista Jorge, que motivaram meu exílio. Foram o argumento usado pelas autoridades ditatoriais da época para me colocarem como incurso na Lei de Segurança Nacional conta.
Ao garimpar suas canções gravadas por terceiros, deixou algumas de fora. Entre os intérpretes excluídos figuram Erasmo Carlos, Wanderléa, Belchior, Jards Macalé, Pepeu Gomes, Paula Toller, Paralamas, Paulinho Moska e Farofa Carioca. Já entre os que entraram, vale destacar Caetano Veloso na impagável Vampiro, Gil com Maracatu Atômico, Gal Costa em Lágrimas Negras e Elba Ramalho na triste Sonho de Uma Noite de Verão.
O escorregão do repertório fica por conta das fracas presenças de Fagner em Viajante, Zé Ramalho em Orquídea Negra e Vânia Bastos em O Rouxinol. É pouco para aplacar a poética, o deboche e as provocações do profeta do Kaos.





