"Maus Hábitos" mostra um Almodóvar ainda mais anárquico
São Paulo, 10 (AE) - "Maus Hábitos" (Entre Tinieblas) é da fase mais anárquica de Pedro Almodóvar. Quem conhece os últimos filmes do diretor, como "Carne Trêmula" ou "Tudo sobre Minha Mãe", pode achar estranho que Almodóvar tenha uma fase mais anárquica que outra. No entanto, é verdade. Hoje ele atingiu a maturidade, quase a perfeição estilística (se é que isso existe no mundo por definição imperfeito do cinema). Sabe que, para chocar, não precisa acumular escândalo sobre escândalo. Basta acrescentar elementos de estranheza a uma trama aparentemente normal. Produz mais efeito. Também nesse sentido, de busca de uma economia do impacto, é um discípulo de Luis Buñuel.
Mas, nos tempos de "Maus Hábitos", seu terceiro longa-metragem, o diretor entrava em cena como um demolidor. Como um daqueles pesos pesados que querem arrasar o adversário no primeiro round. Como foi Mike Tyson na fase de ouro de sua carreira. Em "Maus Hábitos", Almodóvar conta a história de Yolanda Bell, que vive na base da droga, sexo & bolero, e só se decide a tirar o time de campo quando vê o namorado sucumbir a uma overdose. De heroína misturada com estricnina. Resolve desaparecer por uns tempos e escolhe como esconderijo um lugar onde ninguém se lembraria de procurá-la: um convento. Acontece que cai numa instituição da pesada, uma tal de Ordem das Redentoras Humilhadas, comandada por uma madre superiora adepta da blasfêmia e da cocaína. A finalidade da ordem é salvar garotas que levam uma vida de perdição. Só que atravessa uma crise, porque, na Espanha muito louca que emergia do fascismo, não havia muitas mocinhas desejando ser salvas. Todo mundo estava mais a fim de ir em busca do tempo perdido, para colocar as coisas de maneira pudica.
Descontados alguns exageros, "Maus Hábitos" até que é uma boa comédia. Almodóvar sempre teve o senso agudo para captar o absurdo das convenções e colocá-las a nu, o que é uma maneira bastante eficaz de subvertê-las. No caso, seu alvo são as instituições religiosas, muito naturalmente vistas, na Espanha pós-franquista, como linhas auxiliares do antigo regime. Mas, é claro, no raio de ação da metralhadora giratória do cineasta entram também o autoritarismo tout court, a discriminação sexual
a pieguice e o moralismo social.
Se o resultado não chega a ser brilhante, pelo menos denota a alegria do criador pelo fato de estar demolindo instituições. Muitos anos depois da realização desse filme, a atriz Marisa Paredes disse em entrevista que, naquele tempo, Almodóvar era mais feliz. Tinha menos compromissos, filmava com pouca grana e por isso devia menos satisfações aos produtores. Não era tão famoso e portanto não tinha de se preocupar em manter uma imagem ou uma atitude. Esse frescor e descompromisso são perfeitamente perceptíveis no filme. (L.Z.O.) Serviço - "Maus Hábitos" (Entre Tinieblas). Espanha, 1983. Dir. de Pedro Almodóvar, com Cristina Sanchez Pascual, Marisa Paredes, Carmem Maura. Distribuição Cult Filmes





