"Maus Hábitos", filme do começo da carreira de Almodóvar, entra em cartaz
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 11 (AE) - É um filme do começo da carreira de Pedro Almodóvar, da fase anterior à consagração de "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos". Foi feito em 1983, depois de "Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón" e "Labirinto de Paixões", que, a propósito, também será lançado brevemente pela Pandora. Como esse, "Entre Tinieblas" só é conhecido por meio de sessões especiais. Com o título de "Maus Hábitos", entra finalmente em cartaz.
Almodóvar mudou muito seu estilo e suas preocupações. Está hoje fazendo filmes como "Carne Trêmula". Mas, com certeza, ainda tem um público fiel para as estripulias do começo de sua carreira, quando era identificado como o cineasta da cafonice e dos boleros. Na sofisticada análise que fez de seu cinema, a socióloga Maria Antonia García de León acha que a paixão de Almodóvar pelo bolero tinha muito da cultura feminina dos afetos e do cru realismo das classes baixas. Mas atire a primeira pedra quem nunca ouviu (e gostou de) Lucho Gatica.
Maria Antonia e Teresa Maldonado escreveram o melhor estudo sobre a primeira fase da carreira de Almodóvar. Em "Pedro Almodóvar, la Otra España Cañí", chegaram à conclusão de que seu estilo entraria em processo de pasteurização com o sucesso. Preferiam, quem sabe, o Almodóvar dos personagens marginais e da temática insólita dos primeiros filmes.
"Maus Hábitos" subverte completamente a percepção que o cinema sempre teve da freira. "Mudança de Hábito", com Whoopi Goldberg, não dá nem para a saída. O filme mostra a madre superiora do convento das Redentoras Humilhadas cheirando cocaína e explicando a uma cabareteira a parábola do filho pródigo. De origem pobre e camponesa, ex-aluno dos salesianos, Almodóvar já confessou que foi iniciado sexualmente por padres. Isso ajuda a explicar o prazer perverso que ele tem em perseguir a Igreja, assim como antes dele fizera Buñuel.
A Igreja é um dos alvos preferidos de Almodóvar nesses filmes em que ainda definia um estilo e escolhia, para expressar-se, o tema da desordem sexual. As freiras de "Maus Hábitos" são drogadas, mas não chegam a dar plena vazão às suas fantasias lésbicas. Mesmo assim, as sugestões de homossexualismo feminino permeiam o filme. E uma freira esconde-se por trás de um pseudônimo para escrever romances vulgares que são o maior sucesso.
Diante de um filme como "Maus Hábitos", o espectador aficionado de Almodóvar pode divertir-se, mas forçoso é reconhecer que o cineasta evoluiu (e para melhor). Até no escracho foi mais virulento em "Matador" e "A Lei do Desejo". É um pós-moderno pela erradição das fronteiras entre a alta e a subcultura, pelos plágios constantes, pelas inúmeras citações e principalmente pela temática insólita. A de "Maus Hábitos" estabelece-se quando a cabareteira drogada, assustada com a morte do amante por overdose, resolve abrigar-se no convento das Redentoras Humilhadas, cuja madre foi visitá-la no cabaré, pedindo autógrafo.
É tudo muito caótico e episódico e a verdade é que alguns episódios são melhores do que outros. As atrizes são as almodovarianas Carmem Maura, com quem ele parou de filmar, Julieta Serrano e Marisa Paredes, que se transformou na sua preferida na fase mais complexa de sua carreira. Há influências que não ficam muito claras. Em diversas cenas, Almodóvar usa a música de Nino Rota para o clássico "Rocco e Seus Irmãos", de Luchino Visconti, sem que seja possível lançar pontes entre os dois filmes.


