"Mauá, o Imperador e o Rei", faz estréia no Festival de Gramado
Rio, 12 (AE) - "Mauá, o Imperador e o Rei", que encerra sábado o Festival de Gramado, estará nas telas do País a partir de 1º de outubro apresentando a trajetória de Irineu Evangelista de Souza, barão e visconde de Mauá, símbolo do capitalista empreendedor do século 19 e um dos personagens mais influentes do Segundo Reinado. Com Paulo Betti, como Mauá, Malu Mader, Othon Bastos e Roberto Bomtempo à frente de numeroso elenco que inclui dois atores ingleses - Michael Burn (Carruthers) e Richard Durden (Barão de Rothschild) -, em superprodução de R$ 6 milhões caracterizada por requintada reconstituição de época.
Em "Mauá, o Imperador e o Rei", Sérgio Rezende segue a linha iniciada com "O Homem da Capa Preta", sobre a polêmica figura de Tenório Cavalcanti. "Podem pensar que sou apaixonado por História, mas não é bem assim: meu maior interesse é por personagens comuns com destinos incomuns que se transformaram em grandes aventureiros."
Sob essa ótica, a atuação de João Evangelista de Souza é exemplar. Menino gaúcho, órfão de pai, veio para o Rio trazido por um tio que tinha um armazém. Nunca frequentou uma escola. Aos 15 anos começou a trabalhar com um inglês (Carruthers) que, ao voltar para seu país, delegou os negócios para o jovem aprendiz.
Aos 24 anos, Mauá já era milionário. Construtor da primeira estrada de ferro do País, criou estaleiros e companhias de navegação, trouxe a iluminação à gás para o Rio, entre muitas outras realizações, como a instalação dos primeiros cabos telegráficos submarinos ligando o Brasil à Europa. Faliu em 1875 e três anos depois escreveu a célebre "Exposição aos Credores e ao Público", uma das principais fontes de pesquisa para o filme. "A trajetória de Mauá começa com um erro trágico - o assassinato do pai, que o impulsionou a um destino extraordinário; era essa a história que me interessava", resume o diretor.
Do sertão ao palácio - Até Mauá, Rezende focalizava o destino incomum de pessoas à margem da sociedade. Com o barão, pela primeira vez, enveredou pela elite. Trocar a aridez do sertão de Antônio Conselheiro por mansões e palácios durante o reinado de Pedro II foi fruto do acaso, ou melhor, de um convite.
Pouco antes de começar as filmagens de "Canudos", foi procurado pelo produtor Joaquim Vaz de Carvalho para dirigir um filme sobre Mauá. "Eu não tinha maiores informações sobre João Evangelista de Souza, o nome que me vinha dos tempos de escola." Foi só depois de terminar as filmagens na Bahia que começou a destrinchar sua vida em roteiro assinado pelo produtor
Paulo Halm, e por ele, que também assina a versão final. Começou a filmar em março de 98 e após três semanas as filmagens foram interrompidas e retomadas em novembro. O filme tem distribuição Columbia Pictures/Rio Filme.
Calejado pelas experiências anteriores - nas quais até a autenticidade da roupa usada por Claudia Abreu em "Canudos" foi questionada - Rezende partiu para "Mauá" conformado com a inutilidade de pretender transmitir a verdade histórica. "Não há uma história, mas versões dos fatos; realizei o filme com grande liberdade", admite.
Essa liberdade veio depois de contrapor biografias favoráveis, como a de Alberto Faria, à francamente crítica, de Gustavo Barroso, de ler Jorge Caldeira e textos acadêmicos da historiadora Lídia Besouchet. Criou um escravo para o personagem
Valentim (Antonio Pitanga), assim como Barão de Feitosa (Othon Bastos), principal opositor de Mauá, remotamente inspirado no visconde de Itaboraí. A sisudez do mundo dos negócios e os quiproquós das intrigas palacianas são atenuados pelo romance com a bela May (Malu Mader), sua sobrinha e companheira de toda a vida. Os cenários luxuosos exibem locações no Rio, Rio Grande do Sul e Liverpool. Uma inspirada trilha de Cristóvão Bastos pontua a trama.
Contradições - Apesar de defender Mauá com entusiasmo, Rezende assinala algumas contradições em sua biografia: "Ele brigou com o imperador, mas nunca foi republicano. Era um empreendedor moderno, mas permaneceu fiel à monarquia. Nunca foi abolicionista, embora defendesse o fim da escravatura por motivos econômicos - se transformados em operários, os escravos seriam mais tarde consumidores dos produtos produzidos no País."
Esses aspectos, no entanto, submergiram à principal motivação do diretor: "Mauá foi um dos maiores empreendedores da história do País - e maior empreiteiro, banqueiro e empresário de sua época. Hoje é difícil pensar em alguém que junte as três vertentes - talvez o mais próximo seja Antônio Ermírio de Moraes. Mauá tinha um projeto para o Brasil e para ele o Brasil fazia sentido. Era um capitalista sério, que escreveu: Eu sempre quis fazer um bem." Rezende assina embaixo: "Ele fez um bem para o País e faria muito mais se seu projeto desse certo."
Para levar esse personagem às telas, o cineasta optou por uma narrativa clássica. "Achava que era a que mais convinha ao projeto", comenta. "Talvez seja excesso de bom-mocismo, mas procuro ser responsável quando utilizo recursos públicos. Vejo o cinema brasileiro como uma obra pública - uma ponte, uma estrada
uma escola. Os filmes têm uma função social imensa, de discutir e levantar questões do País", teoriza. "Fazer filme sobre o passado é como sessão de psicanálise - não se pode mandar uma carta ao analista falando do trauma de infância: você tem de ir lá, reviver, berrar, espernear. É preciso emoção ao reviver o passado. Com meus filmes procuro a mesma coisa - clareza e emoção."





