São Paulo, 14 (AE) - Ao longo de sua vida, Irineu Evangelista de Sousa, o barão de Mauá, recorreu algumas vezes à Justiça contra seus adversários. Noventa anos depois de sua morte (em 1889), a figura do maior empresário brasileiro do século passado está de volta aos tribunais, em processos entre o produtor Joaquim Vaz de Carvalho, o diretor Sérgio Rezende e o escritor Jorge Caldeira, autor do best seller sobre o mesmo personagem. Caldeira acusa o filme de plágio. Rezende defende-se.
A discussão na Justiça pode garantir publicidade extra ao lançamento, que ocorre em 78 salas de todo o País. Polêmicas à parte (e elas serão resolvidas na Justiça), o filme é muito bem produzido, mas decepciona. Mauá é o tipo do personagem atual. Foi, na verdade, um homem à frente do seu tempo, um empresário que sonhava libertar o Brasil dos grilhões das oligarquias conservadoras, fazendo-o ingressar na modernidade. Sonhava com um País do futuro e, nesse sentido, até mesmo por também ser interpretado pelo ator Paulo Betti, dá continuidade àquele outro visionário na carreira de Rezende, Lamarca.
Não que o guerrilheiro e o empresário sejam a mesma coisa. Dependendo do enfoque, chegam a ser antagônicos, mas, para o diretor, são homens que estão na vanguarda, têm um sonho e fracassam. O Brasil não fica melhor por causa disso. Salta aos olhos o cuidado visual de "Mauá, o Imperador e o Rei". É um raro filme de época brasileiro em que os figurinos não parecem novos, feitos para a produção, nem que as cenas de multidão soam constrangedoras, pela ausência de figurantes.
O filme com certeza se beneficia de uma produção competente, mas não adiantaria nada se Rezende não soubesse filmar. Ele sabe, só que ainda não fez o filme que sua estréia na direção de ficção (O Sonho não Acabou) autorizava esperar. Mas se o acabamento técnico é eficiente, quase impecável, "Mauá
o Imperador e o Rei" tropeça num roteiro capenga. Por mais correta que seja a direção, o filme passa devagar, quase parando.
Embora Mauá esteja sempre em litígio em cena (ele é o rei do Brasil que se opõe ao imperador d. Pedro II, briga no mercado de ações, sustenta posições ousadas em relação ao capital e ao lucro), essa tensão é comunicada superficialmente e às vezes nem é comunicada ao espectador. O filme passa linear e frouxo, exagerando (um defeito que também existia em "Lamarca") na composição maniqueísta dos personagens.
Mauá é um ser unidimensional. O tempo todo é visto como um benfeitor incompreendido. Inversamente, todos os defeitos da elite brasileira são concentrados num personagem fictício, o visconde de Feitosa, que Othon Bastos interpreta com a rigidez de uma (quase) caricatura. O conflito é entre o bem e o mal, nada de matizes intermediários. E, no entanto, a saga de Mauá poderia dar, quem sabe, um filme dramaticamente perfeito, a começar por sua infância, que evoca as narrativas de Charles Dickens.
Ele começou a trabalhar ainda criança. Tornou-se o maior empresário do Império. Foi à falência, de volta à pobreza em que iniciou, mas isso não é o fim de tudo, pois, como informa o letreiro final, saldou suas dívidas, juntou mais dinheiro e terminou seus dias como um homem rico. Essa parte não interessa a Rezende. Como em "Lamarca", ele prefere confrontar o herói com seu fracasso, imposto por uma sociedade (ou uma estrutura de poder) que, em ambos os casos, o diretor contesta.
Há episódios que poderiam ser interessantes, mas ficam trôpegos. O mais insistente é o que retrata um episódio da juventude de Sousa, antes de ser Mauá, quando ele leva um homem que lhe deve dinheiro ao suicídio. Essa imagem vai persegui-lo pelo resto da vida e fica torturante quando o próprio Mauá passa a ser perseguido pelos credores.

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