Se vivo fosse, Tim Maia reagiria como ao saber que as músicas que fez para a seita Universo em Desencanto, logo abominadas e proibidas por ele mesmo, são tocadas em shows, lançadas em CD e jogadas na Internet? Se vivo fosse, Renato Russo aprovaria um filme biográfico com o título Religião Urbana? E Wilson Simonal? Faria o que com o cidadão que resolvesse realizar um filme centrado na polêmica que o colocou por anos como suposto dedo duro da ditadura?
  Sem a presença dos próprios homenageados para falar, quem os conheceu intimamente garante que algumas vezes os fãs armam ‘homenagens’ que fazem os ídolos se virar no túmulo. O exemplo mais recente vem de Tim Maia, morto em 1998. Um técnico do estúdio onde foram gravados os discos Racional Vol. 1 e Racional Vol. 2 - lançados em 1975 para divulgar o movimento Cultura Racional - descobriu uma fita que ficou retida na gravadora por falta de pagamento. À revelia de Tim, o Volume 1 foi lançado em 2005 pela Trama. Já as sobras de estúdio seriam reunidas em um Racional 3 - o renegado do renegado de Tim Maia, que não foi lançado em CD mas acabou na Internet.
  Tim Maia abandonou a seita e passou a odiar o movimento, tanto que quebrou todos os discos que tinha. O temperamento de Maia leva a crer que o cantor não perdoaria quem os recolocasse no mercado.
  O cantor Leo Maia, filho de Tim, acredita que o pai não ficaria lá muito feliz. ‘‘Nunca foi o desejo dele relançar esses discos. O trabalho foi tributo de fé verdadeira, ele acreditava mesmo nisso. Acho que quem quiser, tem que ouvir o que ele deixou pronto e se alguém lança algo novo, remixado de outro jeito, é uma ofensa’’.
  Em seu período Racional, Tim estava tão absorto no movimento que largou as bebidas e as drogas e jogou fora todos os brinquedos dos filhos dizendo que eram coisas dos demônios. ‘‘Apesar de achar que os álbuns Racional são uma obra prima, nunca os ouvi em casa com meu pai. Foi algo 100% espiritual. Difícil de ser feito hoje’’, lembra Leo.
  Morto em 1996, Renato Russo é um dos artistas pop que mais recebe tributos. O mais recente trata-se do filme biográfico Somos Tão Jovens, ainda não lançado. A mãe de Russo, Maria do Carmo Manfredini, sentiu o cheiro de mau gosto no ar ao saber do primeiro título: Religião Urbana. Sabia como ninguém que Russo não engoliria aquela história de líder de religião, de Messias de adolescentes, e pediu a troca para o nome atual.
  Marcelo Bonfá, baterista da banda, diz que há homenagens e homenagens. ‘‘Eu não gosto da palavra tributo. Um monte de gente chama eu e o Dado Villa-Lobos (guitarrista) para participar de tributos ao Legião sendo que muitos, às vezes, nem sabem as letras. De uma forma geral, toda homenagem é saudável, mas temos que saber separar o que é legítimo do que não é.’’
  Ainda sobre Renato Russo, o selo Discobertas, distribuído pela Coqueiro Verde, lançará o álbum O Trovador Solitário. Nele, o pesquisador e produtor Marcelo Fróes, amigo de Russo, promete resgatar um capítulo obscuro na carreira do cantor. O álbum trará históricas gravações caseiras de voz e violão, feitas por Renato em 1982, fase que ficou sem banda, após a extinção do Aborto Elétrico e antes da formação do Legião Urbana. A questão é: se o material diz respeito a um período obscuro, como diz o próprio release, Russo gostaria de ver as músicas editadas? O trabalho de Fróes sai com a autorização da família, o que não responde à pergunta mas é um alento. O álbum trará 11 faixas registradas em gravador portátil e que mais tarde se tornariam sucesso, como Faroeste Caboclo, Eduardo e Mônica e Eu Sei.
  Cazuza, morto em 1990, já ganhou seu filme com aprovação da mãe, Lucinha Araújo. Apesar de vozes contrárias como a de Ney Matogrosso criticarem algumas passagens, o tributo saiu a contento - ao menos por parte da família. ‘‘Regravações de seus sucessos são sinais de que o poeta está vivo, sejam elas bem produzidas ou não. Além disso, ele era festeiro e adorava uma badalação’’, explica Lucinha.
  Com mais poder de fogo para criar polêmica, o filme biográfico Simonal, sobre o cantor que foi suspeito de ter ligações com a ditadura militar, goza da mesma complacência familiar. Wilson Simoninha, filho do cantor, diz que o filme é uma oportunidade para que as pessoas conheçam a ‘‘verdadeira história’’. ‘‘Talvez ele gostasse de receber esta homenagem porque, de certa forma, desfaz a idéia de que ele era informante da ditadura.’’ Sem Simonal aqui para palpitar, resta torcer que ele não se zangue.

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