Maldades na ficção podem causar efeitos bem reais na vida dos atores. Ao encarnarem os vilões mais polêmicos da tevê, há profissionais que passam a ser hostilizados nas ruas. Mas há outros que são amados. Tem até quem perca outras oportunidades de trabalho enquanto comete vilanias em um folhetim. Seja negativa ou positivamente, o que acontece é uma transformação. ''É incrível como a reação das pessoas mudou comigo. Antes me chamavam de linda e me abraçavam. Agora não falam comigo e às vezes nem olham para a minha cara'', conta Alinne Moraes, a psicopata Silvia, de ''Duas Caras''. Antes desse trabalho ela só tinha interpretado mocinhas. A atriz acredita que o público não confunde ator e personagem. Mas inevitavelmente o clima entre telespectador e ator muda enquanto ele dá vida a um mau-caráter.
Regiane Alves é mais radical em relação ao assunto. A atriz já tinha feito algumas novelas na tevê, mas estourou mesmo como Dóris, em ''Mulheres Apaixonadas'', de 2003. Na trama, sua personagem batia nos avós, além de cometer outras atrocidades. A atriz, que na época enfrentou manifestações desagradáveis nas ruas, já disse várias vezes que até hoje muita gente acha que ela é a própria Dóris. E se esforça para reverter esse quadro com a correta mocinha Joana, de ''Beleza Pura''. ''Só agora começo a saber o que é ser abraçada nas ruas'', confirma Regiane. E ela vai mais longe ao contar que campanhas publicitárias e capas de revista eram praticamente inexistentes na época em que fazia a novela de Manoel Carlos. ''Agora, como a mocinha da novela das sete e com a reprise de Cabocla, tenho muitos convites para esse tipo de trabalho'', compara a atriz.
Na mesma ''Mulheres Apaixonadas'', outro ator que enfrentou problemas foi Dan Stulbach, que na história espancava a mulher Raquel, de Helena Ranaldi. Dan conta que as pessoas atravessavam a rua quando cruzavam com ele, deixavam de atendê-lo nos lugares e até se recusavam a sentar ao seu lado em viagens. ''Porque foi meu primeiro personagem de peso na tevê, as pessoas não tinham outra imagem de mim'', teoriza o ator, que até hoje é lembrado pelo personagem.
E é uma teoria que tem fundamento se forem levadas em conta as experiências de atores com mais tempo de televisão. Em ''Páginas da Vida'', Lilia Cabral se destacou como a fria e preconceituosa Marta. A atriz acredita que, por já ter interpretado outros personagens consistentes como a Amorzinho, de ''Tieta'' e Sheila, de ''História de Amor'', não enfrentou situações negativas. Mas Lilia não nega que a popularidade que alcançou com a Marta foi algo novo. ''Foi o papel da minha vida até aqui. Não imaginava que fosse surpreender tanto o público'', afirma. Lilia ainda ousa fazer uma comparação e cita a vilã que é a grande referência. ''Na época da Odete Roitman ainda existia isso de ficarem com ódio das vilãs. Hoje não. A Beatriz Segall carrega esse estigma'', opina a atriz.
E Beatriz carrega mesmo essa marca. Tanto é que a atriz não gosta de falar sobre a figura que representou em ''Vale Tudo'', de 1988. Quando questionada sobre Odete Roitman, ela é direta. ''O público e os profissionais da tevê acham que tenho de fazer sempre a rica e má'', protesta a veterana.
Enquanto a intérprete de Odete Roitman detesta relembrar o sucesso como má, Renata Sorrah se diverte até hoje com as manifestações de carinho em relação à insana Nazaré, de ''Senhora do Destino''. Atualmente ela vive Célia Mara em ''Duas Caras'', mas diz que as pessoas ainda morrem de amores pela louca que fez há três anos. ''Ela era ladra, não tinha moral, era uma sequestradora. Mas todo mundo adora'', delicia-se Renata, aos risos. O que mostra que maldades na ficção revoltam, intimidam, mas às vezes até divertem.

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