MATURIDADE EM FOCO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Marcelo Caires 
Pois é, como você, eu não poderia deixar de me indignar com o noticiário dos últimos dias. Imagine: prática sexual agora é ''comandada'' por pulseirinhas. Sou uma pessoa até bastante permissiva; sustento um olhar contemporâneo em relação às novas demandas da sociedade atual que tudo pode - nem que seja na rede mundial de computadores. Agora... ''convidar'' pessoas pra transar a partir da utilização de ''fios'' coloridos nos pulsos, nossa, essa eu não consigo digerir e, com muita humildade, não sou a pessoa mais indicada para explicar essa revolução quantificada do sexo...
Porém, como muitos alunos na 3 idade acabaram trazendo o assunto para os nossos encontros, me senti inflado em comentar e, de certo modo, induzir uma reflexão sobre a ''sociedade do descartável''. Há uns 10 meses aproximadamente, recebi um material na rede muito interessante sobre os novos modelos de relacionamentos e a quantificação que hoje escutamos dos nossos sobrinhos e netos, depois de uma noite de aventuras: '' - ah... essa noite beijei 1... 2... 4... 8...'' uma verdadeira projeção geométrica! Ou seja, jovens que ''cozinham um suflê de salivas'' numa simples balada... numa única noite. Veja o texto que readaptei; é simplesmente fantástico, registra nossa indignação e nos convida a refletir.
Na hora de cantar, todo mundo enche o peito nas boates e gandaias, levanta os braços, sorri e dispara: ''eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também...''. No entanto, passado o efeito da manguaça com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração tribalistas se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu.
Beijar na boca é bom? Claro que é! Se manter sem compromisso, viver rodeado de amigos em baladas animadíssimas é legal? Evidente que sim. Mas por quê reclamam depois? Será que os grupos tribalistas se esqueceram da velha lição ensinada no colégio, de que toda ação tem uma reação? Agir como tribalista tem consequências, boas e ruins, como tudo na vida. Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo - beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja, é preciso comer o bolo todo e, nele, os ingredientes vão além do descompromisso: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outras bocas etc. Embora já saibam namorar, os tribalistas não namoram. ''Ficar'' também é coisa do passado. A palavra de ordem hoje é namorix. A pessoa pode ter um, dois e até três namorix ao mesmo tempo. Dificilmente está apaixonada por seus namorix, mas gosta da companhia do outro e de manter a ilusão de que não está sozinho.
Nessa nova modalidade de relacionamento, ninguém pode se queixar de nada. Caso uma das partes se ausente durante uma semana, a outra deve fingir que nada aconteceu; afinal, não estão namorando. Aliás, quando foi que se estabeleceu que namoro é sinônimo de cobranças? A nova geração prega liberdade, mas acaba tendo visões unilaterais. Assim, como só deseja a cereja do bolo tribal, enxerga somente o lado negativo das relações mais sólidas. Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado - roçando os pés sob as cobertas, e a troca de cumplicidade, carinho e amor. Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer boa noite, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor e com tesão, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter alguém para amar sem precisar ''fazer de conta que...''.
Já dizia o poeta que amar se aprende amando. Assim, podemos aprender a amar nos relacionando. Trocando experiências, afetos, conflitos e sensações. Não precisamos amar sob os conceitos que nos foram passados. Somos livres para optarmos. E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento. É arriscar, pagar para ver e correr atrás da tão sonhada felicidade. É doar e receber. É estar disponível de alma, para que as surpresas da vida possam aparecer. É compartilhar momentos de alegria e buscar tirar proveito até mesmo das coisas ruins. Ser de todo mundo, não ser de ninguém, é o mesmo que não ter ninguém também. É não ser livre para trocar e crescer. É estar fadado ao fracasso emocional e à tão temida SOLIDÃO. ''Deus não prometeu dias sem dor, risos sem sofrimento, sol sem chuva etc; mas prometeu: força para o dia, conforto para as lágrimas e luz para os caminhos.'' Enfim, estou indignado. E você?
Uma ótima semana!


