MATURIDADE EM fOcO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de março de 2010
Marcelo Caires 
Hoje vou falar com vocês, vovôs e vovós: como andam as brincadeiras com seus netos? Será que continuam sendo aquelas que tudo não pode, não deve ou não dá pra se fazer nessa idade?
Em minhas palestras sempre faço colocações pontuais desse assunto e observo uma grande surpresa dos participantes quando eu digo: ''e daí se você pegou seu(s) neto(s), foi brincar no jardim, rolou/deitou na grama úmida ou foi ao pomar colher frutinhas cantando uma bela canção para alimentar a fantasia e o coração? E daí se vocês foram plantar sementes numa horta e voltaram sujos? Tome um banho, coloque uma roupa limpa e pronto... recomece!'' Afinal, já imaginou como num simples jardim você pode desenvolver uma atividade multisensorial? Utilizar a visão, os ouvidos, o tato, o cheiro e o gosto? Pode-se ainda exercitar o toque nas coisas... das coisas em você... no outro e do outro em você? Pode-se trocar experiências dos sentidos; compreender o seu sentir e o dos outros? Enfim... crescer por meio de mais uma experiência transformadora.
E se pensarmos numa horta com pomar? Adoro esses como exemplo. Pense! Você morde um pedaço de goiaba e o mastiga com uma folhinha bem nova de hortelã e então... descobre uma nova combinação; promove um novo ''orgasmo'' no paladar; uma experiência sensorial nova e pra se guardar por toda a vida. Isso, inclusive, no passado virou um suco que preparado com água, gelo, mel e aveia, foi um refrescante sucesso num dos meus verões com a família.
Morando no Nordeste do Brasil e pesquisando o perfil do idoso nordestino, um certo dia conheci o Sr João; nunca vou me esquecer dele. Cheguei num centro de convivência da 3 idade para desenvolver atividades com os participantes e a coordenadora me chamou e disse: ''Olhe! Veja o seu João... está na goiabeira. É sempre assim...''. E eu perguntei: ''Interessante, que idade ele tem?'' E ela me respondeu: ''89 anos''. Na sequência, fiquei completamente surpreso ao observar a velocidade com que esse homem desceu da árvore com algumas frutas num saquinho amarrado no cinto de sua calça e veio cordialmente nos cumprimentar...
Na verdade, acho que nem eu, aos meus 39 anos, conseguiria tamanha habilidade pra colher a fruta. É lógico que com muito treino eu até praticaria o feito, especialmente se fosse uma necessidade habitual minha, o que ocorre com o Sr João: pois ele me disse que desde a infância nunca parou de subir e descer em árvores frutíferas. Então, a prática vai se aprimorando e aquilo se mantém dentro de um nível estável de mobilidade, força e coordenação, enquanto o físico e o mental ''colaboram'', é claro.
Enfim, na terceira idade é possivel reviver, viver e continuar nossas conquistas; ou seja, olhar para o futuro com muitas novidades. Acredite! Essa história de que algumas coisas eu não posso trata-se apenas, na maioria dos casos, de condutas sociais estigmatizadoras e pré-definidas para idosos, o que colabora para um envelhecer ''cedo'' e com múltiplos problemas como males degenerativos, psicossomatizados, etc. Então, vigie... lute contra ser o que os outros querem que você seja. Ao menos que o seu caso seja o de algum mal naturalmente acometido pelo envelhecimento ou, infelimente, algo inesperado e indesejado dentro dos acontecimentos da vida, que te impuseram determinadas limitações.
Ah, sabe o que o Sr João fazia com as goiabas? Nesse dia somavam 4, muito bonitas por sinal; apetitosas, sabe? Presenteava algumas das mais belas participantes, convidando-as para estar no baile que ocorria nos finais de semana, naquele mesmo espaço. ''Garanhão'' ele, né? E por quê não ser também na 3 idade?
Uma ótima semana!


