Matt Groening não julga seus personagens
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quinta-feira, 09 de março de 2000
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 10 (AE) - Há quem enxergue nos Simpsons um papel político de relevância, um caráter subversivo, um ácido comentário sobre a desintegração da família, uma radiografia dos losers (perdedores) americanos. Certo. Homer é o pai pateta, Marge é a mãe submissa, o filho Bart é um nerd sem aptidões, a filha Lisa é desajustada e o bebê Meg é um encosto. Até o cão é débil.
Mas Matt Groening foi além de uma suposta "função utilitária" com sua arte. Num determinado programa, no qual satiriza os episódios de ficção do "Arquivo X", Homer Simpson abre a porta da casa e depara-se com dois extraterrestres, supostamente os verdadeiros pais de sua filha caçula. Espera-se que ele se assuste com a repugnância da dupla de E.Ts. Mas ele esbugalha os olhos e diz: "Oh, meu Deus: mórmons!"
É o deslocamento, o inusitado, o nonsense do humor de Groening que é a chave do sucesso do desenho. Justamente por ser parte de tudo o que critica em seu desenho, Groening não se detém em julgamentos. Ou melhor: ele absolve seus personagens. Nós também. Simpatizamos com o perdedor Homer, perdoamos as maldades de Bart, vibramos com as vitórias feministas de Marge.
O cartum brasileiro também viveu um momento de passagem como o que os Simpsons promoveram na TV americana. Ficou célebre o cartum de Glauco no "Pasquim", no qual um torturado do regime militar, todo esfolado e preso por correntes num calabouço, aproveita que seu torturador está de costas e tenta passar-lhe o pé no traseiro. Nem todo ato humano é consequente, nos dizia Glauco.
No caso dos Simpsons, o que nos dizem é que nenhum ato humano parece consequente, principalmente nos anos 90, principalmente na América.


