Matt Damon está em "O Talentoso Ripley"; versão de Minghella para um clássico de Patricia Highsmith
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2000
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 17 (AE) - O diretor Anthony Minghella (de O Paciente Inglês, ganhador de nove Oscars) nem se incomoda quando comparam seu novo filme, "O Talentoso Ripley", com a versão anterior, rodada nos anos 60 por René Clément com o título de "O Sol por Testemunha". "São duas visões pessoais sobre o mesmo material, ou seja, o romance de Patricia Highsmith", disse em conversa com a reportagem. Minghella esteve no Brasil prestigiando as pré-estréias do filme, que entra amanhã (18) em cartaz no circuito comercial.
"O Talentoso Ripley" leva para o cinema o primeiro romance de Patricia no qual surge o personagem Tom Ripley, um assassino frio, calculista, sofisticado, que iria reaparecer em livros seguintes. Embora mais fiel do que Clément ao texto inicial, Minghella introduz várias modificações na história. São as marcas do seu estilo pessoal. Por exemplo, o espectador vai logo notar o papel central que a música desempenha no enredo.
Ripley (Matt Damon) é um connaisseur de compositores eruditos, perfeitamente de acordo com o pai de Richard, o amigo que ele fingirá que tenta trazer de volta ao redil familiar, este sim um apreciador do melhor jazz dos anos 50. O Ripley de Minghella é pianista de recursos. Ouve e toca Bach como virtuose e nem quer ouvir falar em Charlie Parker ou Chet Baker. Fanático por música - A trilha sonora tem um papel particularmente importante no filme. Não é surpresa, quando se conhecem os gostos do diretor. "Sou simplesmente fanático por música e gosto muito de tocar piano", diz. Aliás, música é seu ponto de contato mais evidente com o Brasil. "Adoro a música popular brasileira e tenho todos os discos de alguns compositores, como Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos", acrescenta.
Assim, ele não se intimidou com a trilha sonora da versão de René Clément, assinada por ninguém menos que Nino Rota
o compositor favorito de Federico Fellini. Minghella escolheu os temas musicais com cuidado, pois os considera "ideais para evocar um determinado período". Por exemplo, o personagem Richard (Jude Law), ou Dick, como é normalmente tratado, vive numa atmosfera livre, evocativa do existencialismo pós-guerra e isso tem tudo a ver com seus gostos musicais.
"Por isso gosta de Charlie Parker, Chet Baker, Dizzy Gilespie, porque o som que fazem tem a ver com uma atitude hedonista, à maneira de um Jack Kerouac, por exemplo". O contraste? Ripley, apreciador de música clássica, o que poderia indicar, aparentemente, um espírito mais conservador. Falsa pista, no entanto, pois, como diz Minghella, "quem acompanhar a história verá que na verdade Ripley é o improvisador e Dick, o conservador". Tão improvisador que, quando tratar de seduzir Dick, Ripley fará uma imitação perfeita de Chet Baker, cantando "My Funny Valentine" em uma boate italiana.
A música acompanha outros momentos do filme, como aquele em que Ripley assiste a uma representação da ópera "Eugene Oneguin", de Tchaikovski, e vê no palco uma réplica ou um comentário daquilo que estava fazendo na vida real. Porque o filme trabalha o tempo todo num processo imitativo, com tudo o que isso comporta de sedução. Assim mesmo é a linha da história proposta por Patricia Highsmith, na qual o rapaz pobre se fascina pela vida do outro, rico, mata-o e toma o seu lugar. Para manter a farsa, precisa inventar expedientes cada vez mais complicados. Diferenças - A expressão de Harold Bloom, "angústia da influência" (digamos assim, a presença inibidora de um antecessor muito forte), não faz parte do vocabulário de Anthony Minghella. Isso porque, apesar de dizer que gosta de "O Sol por Testemunha", destaca três diferenças fundamentais entre o espírito do romance de Patricia Highsmith e a versão de René Clément.
Na novela, a escritora trata da obsessão de um homem por outro homem; fala da experiência de americanos na Europa; o crime cometido não é punido. Enquanto isso, em Clément, "Ripley é obcecado pelo dinheiro e não pelo homem Dick; a experiência descrita é de europeus na Europa do pós-guerra; finalmente, o criminoso é pego no desfecho", analisa.
São diferenças suficientes para que o filme anterior não sirva de maneira nenhuma como modelo para Minghella. No entanto, como o espectador poderá ver, o final proposto fica a meio caminho entre a solução amoral de Patricia Highsmith e a moralista, de René Clément. "Há de fato uma moralidade no filme e isso eu não posso evitar; é a marca de autor de um cineasta, como eu, formado em criança na religião católica", admite.
Minghella sabe do que fala: é britânico, filho de imigrantes italianos. "O importante não é ver se Ripley é apanhado ou não; é ver como ele lida com sua mente, com seus demônios internos, com sua culpa". Essa, talvez, a opção mais criticável, ou pelo menos discutível, da leitura de Minghella. Ele faz um Ripley tão atormentado pela culpa como um personagem de Dostoievski.
Na verdade, Patricia Highsmith o imaginou frio e calculista, sem um momento de arrependimento. Aliás, dessa forma é o Ripley de Alain Delon. Uma pedra de gelo. Outro aspecto é o homoerotismo visível do novo filme. No anterior, a atração entre Ripley e Dick era apenas insinuada. Agora, acontece às claras. É mesmo o motivo principal para o desfecho criminoso do relacionamento.
Mas, quando se pergunta o porquê dessa opção, o cineasta é enfático: "Não creio que o lado homossexual de Ripley seja o mais importante; o fundamental é ele ser um homem que deseja ser amado; creio que esse é um ponto de contato com o público, homo ou heterossexual, porque afinal de contas todo o mundo deseja ser amado", diz. De qualquer forma, a sexualidade de Ripley é uma ambiguidade a mais, que se soma a outras presentes na história. Expectativa - Esse jogo de ambivalências não pode dificultar a carreira do filme, um thriller psicológico bem montado? Minghella acha que não. Para ele, "O Talentoso Ripley" encontrará o seu público. "Sabe, há duas maneiras de ir ao cinema: podemos buscá-lo para encontrar o que já sabemos, para nos reassegurar; ou então, procuramos algo novo, um mistério que nos provoque e estimule". "O Talentoso Ripley" deve despertar esse tipo de expectativa na platéia.
"Gosto de filmes que mudam de direção e também de personagens que evoluem ao longo da trama", diz. E cita um dos seus favoritos, "Central do Brasil", do amigo Walter Salles: "A maravilhosa personagem vivida por Fernanda Montenegro a princípio põe seus desejos materiais à frente da sua humanidade; depois, com a experiência em contato com o menino, inverte o seu ponto de vista", observa. Verdade.
Mas que ninguém procure em "O Talentoso Ripley" a mesma proposta ética de "Central do Brasil". O Ripley de Minghella pode ser um personagem atormentado, mas não deixa que dramas de consciência o atrapalhem por muito tempo. É um pragmático dotado de escrúpulos teóricos. Um homem do nosso tempo.


