"Matrix" tem Keanu Reeves como herói da informática
São Paulo, 20 (AE) - Onde terminam os sonhos e começa a vida? Essa dúvida deve datar da aurora da humanidade. Aparece em todas as mitologias do mundo antigo. E foi inúmeras vezes expressada em obras poéticas e teatrais. Shakespeare escreveu sobre o assunto em "Sonhos de uma Noite de Verão". Calderón de Barca, o gênio barroco espanhol, analisou o problema em "A Vida é Sonho". Fernando Pessoa fez da questão um dos temas recorrentes e obsessivos do "Livro do Desassossego". E Jorge Luís Borges narrou-a na fábula do homem que viaja, dorme e sonha que é parte do sonho de outro homem...
A mesma fábula que alimentou tantos exemplares da alta literatura acabou indo parar em Hollywood, o grande liquidificador. Inspirados por obras contemporâneas, como "Neuromancer", o romance em que William Gibson inventou o herói hacker e praticamente lançou o termo ciberpunk, os irmãos Larry e Andy Wachowski escreveram o roteiro de "Matrix", que estréia amanhã (21), com Keanu Reeves no papel de Neo, o jovem programador que desconfia de que há algo de podre no reino da informática.
O programador que deseja descobrir a verdade, personagem que, como todo herói pós-moderno, desconhece seus próprios poderes, torna-se, no filme, uma figura de história em quadrinhos, claro, não uma personagem da alta literatura.
A função de Neo, um super-homem virtual, não é levar a platéia a filosofar, mas diverti-la com espetaculares efeitos especiais. The Matrix, a grande vilã, é, na realidade, uma indústria sugadora da energia dos homens, que vivem submersos em uma ilusão alienada.
O filme dos irmãos Wachowski lembra, no visual, "Blade Runner", o clássico de Ridley Scott. Mas não tem um roteiro equivalente ao de seu antecessor. A narrativa é simples, linear, enquanto Scott abusava da ambiguidade, de pontos de vista diversos.
Neo será cooptado por Trinity (Carrie-Anne Moss) para ajudar Morpheus (Laurence Fishburne) a derrubar The Matrix, a organização vampira. Forma-se um pequeno grupo de desajustados que emprestam seus corpos e espíritos (em planos diferentes) à luta contra o opressor. A aventura implica muitos combates, todos coreografados com brilho pelo expert de Hong Kong Yuen Wo-ping.
"Matrix" não é um filme que foge às regras do cinema de ação de Hollywood. Mas a trama hábil, apesar de diversas inconsistências, garante a atenção da platéia. Keanu Reeves é o mesmo ator limitado e rotineiro de sempre, mas, em um script que não exige dele mais que isso, acaba por se sair bem, sustentando o tom de um personagem inverossímil. Carrie-Anne Moss vive a atlética Trinity, ajudante de Morpheus, que leva Neo para o movimento subversivo. Laurence Fishburne, magnífico ator, está excelente como Morpheus.





