"Matrix" chega às locadoras
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quinta-feira, 11 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 11 (AE) - Quando saiu, "Matrix", dos irmãos Wachowski, foi saudado como a mais completa novidade do ano, talvez da década. Bem, é assim mesmo. Faz parte do jogo da indústria cultural apresentar o mesmo como se fosse o novo. Mas, no caso dessa ficção científica, pelo menos no começo a coisa vai bem e é interessante. Keanu Reeves faz o criador de softwares que acaba descobrindo uma coisa incrível. Ele, como toda a humanidade, vive num mundo de ilusão.
Depois de entrar em contato com Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), é informado de que habita um sonho. Ou melhor, um programa de computador. Seria o seguinte: a humanidade viveria nessa realidade virtual desde que foi derrotada por uma geração de robôs construída por ela mesma. Os andróides mantêm os seres humanos nesse estado de suspensão de consciência simplesmente porque precisam deles, como alimento. Idéia terrível. Viver num mundo que não se compreende, em que tudo é aparência.
Imagem perfeita da alienação. Já pensou no que poderia dar essa premissa, se levada a fundo? Poderia levar à conclusão de que somos um bando de ovelhas tristes, manipuladas; que vivemos, do berço à cova, de ilusão e esperança, sustentados por seres que não enxergamos e só têm interesse em nos manter vivos porque se alimentam de nós. Não parece coisa de subversivo? Pois pode parar de se preocupar. Os irmãos Wachowski nada têm de perigosos. São bons rapazes, que apenas se fingem de maus. E se falam um monte de bobagens nas entrevistas, é tudo para consumo da mídia. Faz parte da publicidade.
"Matrix" parte dessa idéia perigosa, a de que não somos senhores em nossa própria casa, e chega a um coquetel pop dos mais pífios. Por exemplo, durante o tempo todo se assistem a lutas marciais coreografadas, bem à maneira de Jack Chan e John Woo. Os personagens usam ternos pretos cortados com elegância e óculos escuros. Referem-se ao blockbuster "Homens de Preto", que era divertido e não tinha pretensão a nada. O ambiente futurista lembra o de "Blade Runner". Mas diferentemente do que ocorre no trabalho mais complexo de Ridley Scott, em "Matrix" tudo acaba se resolvendo como nos mais convencionais dos westerns, em lutas entre o bem e o mal.
Há duelos, pancadaria, vidros quebrados. E, claro, uma infinidade de efeitos especiais, que são os verdadeiros protagonistas do cinema comercial. "Matrix" parece um caso exemplar (como também o é o polêmico Clube da Luta). Pertence àquela categoria de filmes que começam bem, exatamente porque partem de idéias potencialmente explosivas, mas que logo em seguida se esvaziam, perdem conteúdo e terminam na vala do lugar-comum. Por que isso acontece? Provavelmente, porque há uma força gravitacional da indústria, que não confia no apetite do público por novidades.
Trata o espectador médio como criança, que gosta de ouvir sempre a mesma história e não tolera variações. Mas é possível que haja outro motivo e este atende pelo nome de impasse criativo. Parece que os desafios de interpretar o tempo em que se vive são tão grandes que os cineastas conseguem apenas detectar certo mal-estar. Sentem-no, mas não vão além disso. Serviço - "Matrix" (Matrix). Dir. Irmãos Wachowski, com Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie- Anne Moss. Distr.: Warner


