Todos estamos acostumados a conceber um certo tipo de arte em que a obra é o seu próprio significado. Sua razão de ser está colada à materialidade do objeto e seu valor artístico e de mercado é o produto criado pelo artista. Mas, e quando o artista apenas realiza o projeto da obra, tem a idéia e simplesmente não interfere em sua confecção e nem ao menos vê o resultado formal final de sua peça? Isto pode ser considerado arte? Mais. E quando o acontecimento artístico só se dá com a intervenção do público? Ou então: E quando a própria interação com o público é virtual e o resultado, concreto, não pode ser controlado?
Todas essas possibilidades existem e fazem parte do entendimento sobre o que é arte. Mesmo um evento acontecido há anos pode continuar sendo atual toda vez que a ele nos remetemos. Quem poderia dizer como está hoje a espetacular intervenção feita com pedras sobre o Grande Lago Salgado de Utah, nos Estados Unidos, em 1970, a ‘‘Spiral Jetty’’, de Robert Smithson? Aliás, quem foi conhecer de perto, à época de sua construção, este importante trabalho de arte? Ainda hoje, as fotos feitas no momento, evocam a força daquele trabalho, mesmo que ele já tenha sido encoberto pelas águas – ou destruído – sua proposta como objeto artístico continua viva.
Cildo Meireles ateou fogo em várias galinhas na obra ‘Tiradentes: Totem Monumento ao Preso Político’’, de 1970, em plena ditadura militar no Brasil. Sabemos que tal fato aconteceu pela memória e pelas fotos que nos chegaram, mas aquilo durou poucos minutos. Quantas pessoas estavam lá em Belo Horizonte, naquele instante, testemunhando uma ação artística que desapareceria para sempre? O mesmo se pode dizer das ‘‘Trouxas Ensanguentadas’’, de Artur Barrio, que, jogadas por Belo Horizonte (também), em 1970 (também), mexeram com a cidade e com o pensamento tradicional sobre como, quando e onde deve estar a arte.
É engraçado, mas muito do que sabemos sobre arte, nos chega através de reproduções, textos, comentários, fotos. Obras, idéias e ideais que continuam a nos tocar mesmo à distância, mesmo as mais tradicionais. Reparem neste amarelo de Van Gogh? Qual amarelo? Neste aí da reprodução impressa da foto de uma obra de Van Gogh? Neste amarelo ideal que a memória vivifica?
Mas há os artistas que trabalham intencionalmente com esta questão. Sol Le Witt, enviou um projeto para a execução de uma pintura sua em uma das paredes do prédio da Bienal de São Paulo – há duas ou três mostras anteriores – que foi encoberto assim que o evento terminou. Os objetos sensoriais de Lygia Clark e os parangolés de Hélio Oiticica só fazem sentido se usados pelo espectador. Eduardo Kac, artista brasileiro residente nos Estados Unidos, se utiliza da tecnologia para fazer arte. Inventou um robô manipulado por internautas do mundo todo que andava pelas cidades, sem um controle certo de seu itinerário.
Mesmo essas obras ‘‘desmaterializadas’’ podem ser vendidas. No Brasil, alguns museus de arte contemporânea estão adotando uma política de aquisição de acervo para remontar obras de arte conceitual e performances. O MAM de São Paulo,comprou os direitos de duas performances da artista carioca Laura Lima. O que quer dizer, concretamente, que é possível dar a uma proposta efêmera, um caráter de permanência. Além das fotos, vídeos, textos, comentários e documentários sobre esta ou outro tipo qualquer de obra de arte, evidentemente.
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