‘Mata-se até por um tênis’ Paulo Goulart mostra como a violência é vista com naturalidade Antônio Abujamra, o diretor de ‘‘Crimes Delicados’’ assumiu o papel que antes era privilégio de Gerald Thomas: recusou-se ontem a falar com a imprensa, durante a entrevista coletiva. Abujamra estava ensaiando o texto. Gerald Thomas, terça-feira, ainda fazia no Rio a fusão de ‘‘Coro e Camarim, uma tragédia rave’’. ‘‘Se o Abujamra resolver falar, vai abrir a cortina e gritar: fodam-se’’, disse o ator Paulo Goulart. Sobre a peça, Goulart observou que na época em que foi escrita (1973) era de vanguarda, estava à frente. ‘‘Hoje é muito pior tratar da banalização da violência, porque se mata por um tênis, por prazer ou pelo poder. Do ponto de vista intelectual, a peça é maior que a anarquia que colocamos em cena’’, reconhece. Dividida em etapas, ‘‘Crimes Delicados’’ é definida por Goulart como um hino de amor à vida e à profissão. ‘‘A tragédia provoca risos. Como na vida real, é o limite entre o choro e o riso. Quando alguém cai, as pessoas riem. Mas é muito ruim cair. As pessoas se identificam.’’ Para exemplificar como a violência pode estar escapando ao controle, Goulart repete uma frase da peça ‘‘o homem não trepa mais. Ele mata e lê jornais’’. Com isso, Paulo diz que provocam o público a despertar para ‘‘alguma coisa’’. ‘‘Com a imagem de casal estável, Paulo e Nicette consideram a peça como um desafio. Essa maneira de falar sobre a violência é nova’’, justifica. Mas, que ninguém espere uma solução para o mal. ‘‘Não apontamos caminhos.’’ (E.M.C.)

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