No salão de estética ‘‘Vênus’’, três profissionais da beleza afagam o ego alheio e de quebra aplicam cremes rejuvenescedores. As esteticistas do filme ‘‘Instituto de Beleza Vênus’’, vencedor de quatro Prêmio César, tentam com dedicação quase religiosa retardar o processo de envelhecimento das delicadas clientes. A roteirista e diretora francesa Tonie Marshall encontra nesse santuário dedicado à beleza o local ideal para discutir as formas diferentes de se lidar com a solidão.
AngSle, Maria e Samantha ouvem histórias e queixas diariamente. AngSle (Nathalie Baye), 40 anos, inválida sentimentalmente, não consegue manter um relacionamento duradouro e corre atrás de encontros furtivos e passageiros. Ela necessita de amor, mas não se permite amar. Um escultor se apaixona violentamente por AngS le, há um mal-estar evidente. No primeiro encontro, ele dispara para a amada: ‘‘Você tem uma cara de que não está em paz. É isso que me atrai’’.
Uma lição dos franceses nesse filme pode ser aprendida na maneira franca e direta como os relacionamentos acontecem, sem máscaras. Nadine (Bulle Ogier), proprietária do Instituto, dispara para Samantha (Mathilde Seigner) durante um dia normal de trabalho: ‘‘As vezes você é antipática’’. A outra imediatamente responde: ‘‘A recíproca é verdadeira’’.
A direção de arte do filme faz interagir cores quentes e frias, dialogando com os sentimentos das figuras exóticas que se alternam no salão. Um detalhe que faz a diferença: a campanhia do ‘‘Instituto de Beleza Vênus’’ soa como se as clientes entrassem num local mágico. Existencialista sem ser discursivo, a grata surpresa desse filme se deve à direção de Tonie Marshall, que põe à flor da pele toda a sensibilidade de mulheres à beira de um ataque de nervos à francesa. Para segurar o giló da vida, a cantora Maysa dá tom da melancolia na canção ‘‘Manhã de Carnaval’’. (Cult Filmes. Duração: 105 min).
OUTROS LANÇAMENTOS



ReproduçãoBaseado em texto de Oscar Wilde, ‘‘O Marido Ideal’’ expõe as mazelas e hipocrisias da sociedade londrina de 1895


O Marido Ideal
A produção anglo-americana, ‘‘O Marido Ideal’’, com a direção competente de Oliver Parker, resgata peça de Oscar Wilde, em que o amaldiçoado escritor inglês expõe toda a hipocrisia da sociedade londrina de 1895. Por trás do charme e beleza, impera o vale-tudo para manter o status e títulos de nobreza.
O conchavo político é protagonizado pela ardilosa Sra. Cheveley (Juliane Moore), que toma como refém o político de atitudes irretocáveis Sir. Robert Chiltern (Jeremy Northam). A escandalosa-contida tem em mãos um segredo que pode destronar Chiltern – o marido ideal – de seu pedestal de homem de moral imaculada. Em meio aos rapapés das convenções inglesas, surge Arthur Goring (Rupert Everett). Sem querer, cai numa rede de intrigas e mal-entendidos. Lady Chilterny (Cate Blanchet), a esposa frágil, e sua cunhada (Minnie Driver) completam o digestivo e bem produzido ‘‘O Marido Ideal’’. Do elenco irretocável, o destaque é Huppert Everett. Sempre o mesmo: altivo, disputado e jogando charme do alto dos seus 1,94 metros. (Fox. duração: 98 min)
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ReproduçãoNo documentário de Eduardo Coutinho, o sincretismo religioso é investigado através de depoimentos de pessoas anônimas





Santo Forte
O premiado documentário ‘‘Santo Forte’’, de Eduardo Coutinho, investiga o sincretismo religioso no final de século, no microcosmo da favela na Gávea (Zona Sul do Rio de Janeiro). As confissões magnetizantes de personagens anônimos trazem em comum a crença numa comunicação direta com o mundo sobrenatural através da intervenção, em seu cotidiano, de santos, orixás, guias ou do Espírito Santo.
Eduardo Coutinho (‘‘Cabra Marcado Pra Morrer’’) inclui o making of do documentário permeando os depoimentos e revela a equipe peregrina se equilibrando nas ladeiras do morro. A narrativa do filme exclui os arabescos de movimentação de câmera. Como as histórias, as imagens são diretas. ‘‘Santo Forte’’ mostra um painel diverso do imaginário popular brasileiro, cuja fé transcende os rótulos religiosos. Theresa Ferreira, analfabeta apreciadora de Beethoven, conquista pela sabedoria. Coutinho questiona Theresa: a senhora é feliz? ‘‘Essa é uma pergunta que dói muito para responder’’.
‘‘Santo Forte’’ não é entretenimento. É um ponto de partida para uma conversa sem fim. A veracidade das confissões sobre religiosidade nos faz pensar: crer ou não crer?. (Funarte/Riofilme. Duração: 95 min).

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