Massacre verbal
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de julho de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Uma comédia que se sustenta ao alfinetar os padrões comportamentais da sociedade moderna, o filme ''O Deus da Carnificina'' - que estreia esta semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - é uma experiência interessante, de humor afiado, mas que decepciona pela falta de propósito e de ambição cinematográfica.
Baseado no roteiro da peça francesa ''Le Dieu du Carnage'', logo no começo fica evidente a vocação teatral do longa: a história toda se passa entre quatro paredes de um apartamento do Brooklyn, onde dois casais discutem um incidente (mostrado, ao fundo, durante os créditos iniciais do filme) que aconteceu entre seus filhos. Com um comportamento amigável no princípio, a politicamente correta Penelope (Jodie Foster) e seu marido 'capacho' Michael (John C. Reilly) tentam chegar a um acordo com a apaziguadora Nancy (Kate Winslet) e seu marido Alan, que é um poderoso advogado da indústria farmacêutica (Christoph Waltz).
Após algumas conversas sobre a briga dos filhos e de um acordo selado em um contrato assinado por ambos os casais, tudo parece em ordem, mas o clima amistoso começa a mudar após algumas xícaras de café. Depois de algumas observações ácidas de um casal para o outro, a máscara da cordialidade começa, lentamente, a se desprender do rosto de cada um dos personagens, revelando os seres humanos prepotentes e egoístas que estavam escondidos por detrás dos apertos de mão amigáveis.
Sempre cercado por uma aura de falsidade - repare a postura auto-referente de Penelope (''Porque com meu filho eu faço assim'') e o olhar entediado de Nancy, que aceita tanta besteira até, literalmente, vomitar - não é surpresa que o espectador acabe torcendo para o desprezível personagem de Alan; ele não faz questão de ser educado, e suas observações sinceras é que são o gatilho da discussão que sustenta o filme.
Mesmo dirigido pelo veterano Roman Polanski e estrelado por quatro atores de peso (três deles já ganharam o Oscar), os diálogos têm altos e baixos. Preso dentro de apenas um cenário, o longa perde muito por não abrir mão de seu espírito 'teatral', que limita as possibilidades narrativas e torna tudo superficial - por que, afinal, eles não vão embora? Qual o motivo de todos ficarem ali, evidentemente contra a vontade, naquela sala de apartamento? A impressão é de que Polanski escolheu dirigir ''O Deus da Carnificina'' em marcha lenta, sem nunca tentar sair da zona de conforto proporcionada pelo seu roteiro pronto.
Ancorado, em diversos momentos, pela competência de seu elenco, é admirável perceber como cada um dos atores consegue conferir camadas aos seus próprios personagens, e nisto reside a força maior do filme. É apenas enquanto os casais estão se entediando mutuamente - conversando sobre as suas próprias profissões, seus filhos ou o bolo de frutas de Penelope - que o longa se arrasta como uma visita indesejada.
O filme termina em um grande anti-clímax e, após o fechar das cortinas, não sobra muito o que discutir sobre os motivos reais de cada um de seus personagens. Se fosse o fim de uma peça no teatro, você aplaudiria. Mas não de pé.


