São Paulo, 21 (AE) - A abertura do Japão ao Ocidente, em meados do século passado, não provocou apenas o crescimento de seu comércio, mas a modernização do país. Parece claro que o objetivo do imperador Meiji era não só atrair estrangeiros como recuperar o atraso da era Tokugawa, quando o fervor nacionalista baniu tudo o que vinha de fora como arte do demônio ocidental. O livre trânsito do Japão com outras culturas rendeu revelações nas artes visuais como Kuroda Seiki (1866-1924), que estudou pintura em Paris e pode ser considerado o avô de todos os artistas que integram a Mostra Internacional Itinerante Japão-Brasil, que o Masp abre amanhã (22), às 19 horas.
A exposição faz parte das comemorações dos 90 anos de imigração japonesa no Brasil, iniciada em 1908. Organizada pelo Centro Cultural Usiminas com apoio do Ministério da Cultura e da Fundação Japão, a mostra tem 40 obras de 7 artistas japoneses e 13 nipo-brasileiros, entre eles Tomie Ohtake, Flávio Shiró e Manabu Mabe, já morto. Curiosamente, são as obras dos artistas residentes no Japão as que revelam desejo mais intenso de parodiar a história da arte ocidental. Os veteranos artistas japoneses que fixaram residência no Brasil participaram de um rito de passagem tão cedo que logo acharam o caminho entre a economia japonesa de traços e a exuberância barroca tropical.
Tomie Ohtake é o exemplo maior dessa síntese. É certo que as cores de suas telas mudaram muito desde os anos 50, mas a evolução de sua pintura passa pela contemplação da paisagem brasileira da época. Tomie volta o segundo olho para a própria cultura japonesa e parte dessa paisagem geometrizada para figuras essenciais e, depois, para a abstração. Em outras palavras, a pintora faz uma síntese concreta, muito próxima da poesia japonesa, do haikai clássico, com muita clareza e sem ranço chauvinista.
Outro nome de destaque entre os nipo-brasileiros é Flávio Shiró, que veio especialmente de Paris para a exposição. O caminho expressionista de Shiró o afasta um pouco de seus amigos e contemporâneos japoneses que elegeram o Brasil como segunda pátria. Muitos o aproximam de Francis Bacon, mas nunca é demais lembrar que o gesto vigoroso do seu pincel vai buscar no passado japonês (especialmente em Hakuin Ekaku) sua dramaticidade.
Esses exemplos, além dos veteranos Manabu Mabe e Tikashi Fukushima, permitem dizer que os artistas mais velhos estão ancorados no projeto moderno, ao contrário do grupo mais jovem de expositores japoneses, quase todos dedicados a uma reinterpretação de caráter pós-moderno, quase anedótico. É o caso da pintora Miran Fukuda, de 36 anos, que brinca com a história da gravura ocidental fazendo uma colagem de 12 peças baseadas em pintura francesa.
Não tão nova, a veterana japonesa Yayoi Kusama, que completa 70 anos, também poderia ter escolhido uma gravura de Houksai ou Hiroshigue para desenvolver suas pesquisas sobre padrões e uniformização artística. Mas preferiu incursionar pela história da arte ocidental, exibindo na mostra uma réplica da Vênus de Milo em frente de um mural de tinta acrílica que anula o seu corpo por força da repetição do mesmo padrão cromático.
A obsessão japonesa pelo simulacro é grande. Uma curiosa peça da exposição é a escultura em cerâmica, de Kimiyo Mishima, chamada Work 96-A, que imita uma pilha de jornais e revistas. Kimiyo acha que construiu uma parábola sobre o homem moderno soterrado por informações. Sua metáfora é um tanto rudimentar, embora impressione.
Outra curiosidade na mostra é a presença de artistas que não temem incômodas conexões com movimentos já enterrados na Europa, como o surrealista. Daisuke Nakayma, que tem pouco mais de 30 anos, concorre ao posto de Louise Bourgeois de Kagawa, onde nasceu a artista japonesa. Suas formas híbridas tanto comportam associações com máquinas infernais como monstros de natureza agressiva e erótica.
Daisuke dialoga com outros artistas europeus que trabalham no mesmo registro, o do choque, para despertar a consciência anestesiada do homem contemporâneo. Cabe lembrar que o grotesco e a distorção fazem parte da arte japonesa há séculos (e os retratos de Sharaku, executados no século 18, são exemplos vigorosos dessa paixão pelo bizarro). A mostra tenta contar um pouco dessa história sem fim.

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