Masp fecha as portas ao meio-dia em sinal luto
São Paulo, 01 (AE) - O Museu de Arte de São Paulo fchou as portas hoje ao meio-dia em sinal de luto. "Vamos fazer todas as homenagens que ele merece, porque o museu deve praticamente tudo a ele", disse o arquiteto Júlio Neves, presidente do Masp. "Todos torcíamos para que ele chegasse aos 100 anos para as comemorações do centenário, mas sabíamos que só um milagre faria com que chegasse lá", disse Neves. "A morte é sempre ruim, mas ele estava com uma péssima qualidade de vida, ultimamente".
Morto o "operário da cultura", como ele se definia, o trabalho de continuidade da sua obra agora estará a cargo de Graziella Valentinetti, sua cunhada (irmã de Lina Bo) e presidente do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi. Graziella passou os últimos nove anos cuidando do "professor" na Casa de Vidro, no Morumbi, ao mesmo tempo em que dirigia o instituto. "Sinto-me desamparada, estou sozinha", disse ela hoje, enquanto cuidava dos detalhes do velório de Bardi. "Ele estava muito doente, mas enquanto estava vivo era um impulso grande para levar para a frente todas as coisas", afirmou.
Entre essas coisas, estão as comemorações do centenário do professor, que ocorrerão a partir de fevereiro em três museus da cidade. "Ele ficou triste desde que morreu minha irmã, eu diria", lembrou Graziella. Contribuição - "Por mais controversa que tenha sido sua figura, é inegável sua contribuição na mudança do cenário brasileiro de arte", disse Tadeu Chiarelli, curador-chefe do Museu de Arte Moderna (MAM). "Não só pela formação do acervo do Masp, mas também pela instauração no País de um conceito contemporâneo de museu, como espaço também de reflexão e produção de arte, é bastante simbólico o fato de que, no dia de sua morte, o acervo do Masp esteja fechado: é como se fosse uma utopia, essa que ele militou nos anos 50, tivesse chegado ao fim".
José Mindlin, amigo de Bardi há quase 50 anos, acredita que o Brasil já "havia perdido Bardi uma vez", quando ele deixou a direção do Masp. "O movimento de divulgação e exibição de arte no Brasil pode ser dividido em antes de Bardi e depois de Bardi", ressaltou. "Ele foi a pessoa que deu credibilidade às idéias de Chateaubriand", resumiu Carlos Bratke. O curador Nelson Aguilar, também amigo, acredita que Pietro Maria Bardi não legou apenas o grande museu paulista, mas também lições de exibição de arte que formaram mais de uma geração de curadores no Brasil.
"Bardi foi um homem extremamente prático, que formou gerações articulando ações culturais improváveis para o Brasil em seu tempo", comentou ele. "Fosse ele um professor de universidade, a história recente da arte no Brasil seria outra". Aguilar lembra que Bardi jamais repetiu uma exposição que já tivesse sido vista. "Sempre tinha informações de primeira mão e sabia bem o que fazer com elas".
O diretor da Pinacoteca, Emanoel Araújo, responsável pela organização da exposição que homenagearia os 100 anos de nascimento de Bardi, acredita que a melhor homenagem que se deve prestar ao criador do Masp é cuidar da manutenção e da continuidade de seu trabalho. "Não só do belo prédio que abriga o Masp, mas também de seu acervo e sua memória".
De Nova York, o secretário de Estado da Cultura, Marcos Mendonça, declarou que a morte de Bardi é uma "perda irreparável". "Ele foi sem dúvida um dos homens que mais colaboraram para o desenvolvimento da arte no Brasil, um gênio em seu tempo". Para Luís Hossaka, o Masp vai continuar funcionando como um laboratório dinâmico de cultura social voltada às características peculiares da arte brasileira. "Para o conservador-chefe do museu, o projeto artístico de Bardi sempre foi a educação e isso será mantido".





