Masp expõe fotos de Verger
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quinta-feira, 13 de maio de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 14 (AE) - O ano de 1932 foi decisivo na vida do fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger (1902-1996). Após a morte de sua mãe, Verger viajou pela Córsega, fez suas primeiras fotos, conheceu a União Soviética, viu diminuir seu entusiasmo pelo comunismo e passou os dez anos seguintes viajando pelo mundo. Pierre Verger tinha, então, 30 anos. Decidira viver até os 40, quando o suicídio colocaria um ponto final em sua trajetória. O projeto de morte anunciada, felizmente, não vingou. Verger viveu quase 94 anos e morreu na Bahia, terra que adotou e adorou. Agora, como homenagem, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) abre na quarta-feira uma exposição com 162 fotos suas, entre elas imagens inéditas vindas da França e outras pertencentes ao acervo do museu.
Muitas dessas imagens foram escolhidas em setembro de 1992 para o livro "Le Messager", publicado na França pelos editores Jean-Loup Pivin e Pascal Martin Saint Léon. Durante uma viagem à Bahia a dupla examinou 65 mil fotografias de Verger produzidas justamente entre anos decisivos, 1932 e 1962, selecionando duas centenas delas, de históricos registros de líderes políticos (como Trotski, exilado no México) a instantâneos do povo nigeriano feitos em 1962, quando Verger repensou sua carreira como fotógrafo profissional.
Imagem e verbo - Do total de imagens apresentadas na exposição, a maioria (110 fotos) pertence à coleção "Revue Noire", publicação francesa que trata da cultura negra. A Fundação Pierre Verger, de Salvador, mandou 39 imagens inéditas e a Coleção Pirelli/Masp colaborou com outras 13 fotos. O núcleo da exposição com a coleção da Revue Noire traz comentários assinados pelo próprio Verger sobre as imagens, flagrantes da população negra de três continentes. O núcleo com as 39 fotos vindas de Salvador mostra cenas do cotidiano de negros brasileiros, haitianos, cubanos, americanos e africanos. Finalmente, as fotos da Coleção Pirelli estão entre os melhores registros de um requintado fotógrafo que parou de usar a máquina quando lhe pediram explicações sobre as imagens captadas.
Uma bolsa de estudos concedida pelo Instituto Francês da áfrica Negra obrigava o fotógrafo a escrever relatórios, algo tremendamente aborrecido para alguém que acreditava na força e autonomia das imagens. Assim, pensou Verger, seria melhor escrever um livro sobre suas observações. Escreveu mais de 40, entre eles "Deuses da áfrica" (1954) e "Notas sobre o Culto aos Orixás e Voduns" (1957), o último agora relançado pela Edusp
Viagem interior - O valor das imagens e palavras de Verger não era meramente documental. Essa viagem ao mundo negro foi, na verdade, uma viagem interior, de autoconhecimento. Verger, filho de prósperos burgueses, embarcou na quarta classe do navio Ville de Verdu I, em 1932, à procura do paraíso perdido de Gauguin. Foi além do Taiti. Acabou descobrindo nos mares da Oceania e em terras africanas que teria de buscar no mundo ancestral o sentido de sua existência. Antes de desembarcar no Brasil, em 1946, Verger viajou por todo o mundo antigo, fotografando com sua Rolleiflex os chineses de Pequim, os negros da Nigéria e os pobres do Peru. Viveu miseravelmente em Buenos Aires até 1941, um ano antes da data marcada para o suicídio programado.
Em 4 novembro de 1942, a morte perdeu um aliado. Verger não se matou. Estava lendo, na ocasião, "A Importância de Viver", de Lin Yu Tang. Exatamente dez anos depois Verger renasceria com outro nome. Em Ketou, 1952, Pierre Verger virou Fatumbi num ritual de iniciação realizado na mesma região africana de onde saíram os fundadores dos primeiros terreiros de candomblé da Bahia. Verger virou babalaô e ganhou acesso ao maior segredo da cultura ioruba, o segredo dos deuses, obtendo livre passaporte para o mundo mítico. Mais tarde, na Bahia, Verger viraria oju-oba ("o olho do rei"), babalaô "olhador" que é capaz de prever o futuro.
água e azeite - Ao contrário de muitos etnólogos e antropólogos, esse trânsito intercultural não fez de Verger um míope. Quando perguntavam ao fotógrafo o que achava do sincretismo religioso na Bahia, respondia simplesmente que isso era besteira, que não existia sincretismo coisa nenhuma. Costumava ilustrar sua tese recorrendo à imagem de um copo com água e azeite em que os dois elementos convivem sem se misturar, embora no mesmo recipiente. Católicos podem frequentar terreiros de candomblé, mas continuam católicos, insistia.
Olhando as fotos da exposição, é possível afirmar que Verger não ficou totalmente fora da herança cartesiana francesa. Assimilou a cultura ioruba, mas permaneceu francês em sua busca de equilíbrio formal e na composição harmônica quase bressoniana. O "quase" evita uma comparação desnecessária: a grandeza de ambos está na busca de um caminho individual. Cartier-Bresson foi atrás das prostitutas mexicanas. Verger preferiu os índios peruanos e os negros africanos, denunciando o genocídio cultural praticado contra os dominados. Não fez disso um gesto político, mas humanitário, encontrando na convivência com os descendentes de africanos, no Brasil, o sentido da vida. Verger via na secularização a morte de um sentimento religioso que mantém a integridade do homem. A educação mais idiotiza do que esclarece o homem, defendia, porque o obriga a viver de uma maneira que nada tem a ver com sua natureza. Muitas das fotos expostas no Masp mostram representantes dessas culturas milenares que resistiram à uniformização, a essa "globalização" hedonista que expurgou a idéia do sagrado e impôs os padrões da cultura laica, apagando traços ancestrais. Verger conseguiu captar nos rostos dos negros os traços dessa cultura que resistiu à opressão do mundo moderno.


