São Paulo, 29 (AE) - O nome da retrospectiva do francês Arman, que o Museu de Arte de São Paulo (Masp) abre amanhã (30), poderia ser: uma paródia do mundo moderno. A exposição apresenta cerca de 70 esculturas feitas a partir de objetos cotidianos e industriais, como tênis, máquinas de escrever, carrinhos de supermercado, tampinhas de garrafa e lixo - símbolos do consumismo dos tempos atuais -, que perdem a identidade habitual e tomam forma segundo a concepção pessoal do artista.
Ao apropriar-se de objetos ou fragmentos do mundo real, Arman subverte seu significado. A acumulação de materiais representa uma crítica à padronização cultural, assim como sua destruição, uma recusa. "Ao usar a multiplicidade, ele destrói a identidade do material original e revela outra, estabelecendo uma nova percepção do real", explica a adida cultural do consulado francês, Agnes Nordmann.
Ao lado de César, Haim, Yves Klein, Tinguely e Villeglém
Arman integra o Novo Realismo francês, movimento criado na década de 60 pelo crítico de arte Pierre Restany por meio do manifesto Nouveau Réalisme. Em setembro, quando esteve no Rio para a abertura de sua retrospectiva - a primeira no País - no Museu de Arte Moderna (MAM), Arman comentou que, na assinatura do manifesto, um artista discutia com outro em virtude da falta de unidade dos trabalhos: o de Yves Klein era muito diferente do de François Dupresne, assim como o dele em nada se parecia com o de Niki de Saint Phalle. Isso talvez explique a resistência inicial dos críticos de arte em aceitar o movimento, por mais que ela tenha durado pouco tempo, e o novo realismo francês, tenha, anos depois, predominado nos museus.
Aos 71 anos, Arman é, acima de tudo, um colecionador. "Mas não um colecionador convencional, uma vez que esse guarda o exemplar pela sua singularidade, justamente o que ele recusa"
comenta Agnes. Por isso que, sem culpa, ele acumula objetos para destruí-los ou, pelo menos, interferir em seu significado. São instrumentos musicais cortados; materiais destruídos, intencionalmente, pelo fogo; objetos acumulados e sobrepostos. A intenção é clara: "A destruição faz aparecer estruturas escondidas", explica Agnes. "Arman muda a forma de ver os objetos prosaicos que, normalmente, não atraem a atenção; ele dá um novo status para o material."
Toda a obra de Arman é construída a partir da reflexão plástica - e crítica - sobre as mudanças ao longo do século 20, nas profissões, nos hábitos e nas diferentes classes sociais. Mas, se a maioria de seus trabalhos tem uma referência universal
um, pelo menos, opta pela instrospecção. Trata-se de Aldeia de Minha Avó, em que ele usa bules de café e moinhos, dando a impressão de uma vida bucólica.
A exposição, organizada pelo diretor da Galerie Nationale du Jeu de Paume, em Paris, Daniel Abadie, esteve no Rio, em Portugal, em Israel e na Alemanha. Depois de São Paulo, segue para o México, a China, Taiwan, o Japão e a Espanha e retorna a Paris em fins de 2001. SERVIÇO - Arman - Retrospectiva. De terça a domingo, das 11 às 18 horas. R$ 10,00 (R$ 5,00 estudantes; grátis até 10 anos e maiores de 60). Masp. Avenida Paulista, 1.578, tel. 251-5644. Até 9/1. Abertura amanhã (30) às 19 horas para convidados

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