Masagão surpreende com "Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos"
São Paulo, 05 (AE) - É um filme que prova que o cinema, felizmente, ainda não esgotou sua capacidade de surpreender e maravilhar. "Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos", de Marcelo Masagão, que estréia amanhã (06), é um dos filmes mais originais dos últimos tempos e não apenas entre as produções do cinema brasileiro. Produzido por apenas R$ 140 mil (no tempo em que o real ainda tinha paridade com o dólar, informa o diretor), o filme é o resultado de três anos de pesquisa do autor e também da confluência de dois fatores: um curso que ele fez com o historiador Nicolau Sevcenko e uma bolsa que recebeu da fundação americana MacArthur.
Masagão tornou-se conhecido promovendo o Festival do Minuto, por meio de sua agência, a Observatório. Ele queria fazer um inventário sobre a memória do século 20. Encontrou-a sistematizada num cemitério. O campo dos mortos como local da memória, algo essencialmente vivo (e forte). O próprio título vem de uma inscrição que Masagão encontrou no pórtico de um cemitério. Ele misturou o dr. Sigmund Freud com Eric Hobsbawn para fazer o que não deixa de ser a psicanálise do século. Chegou à conclusão de que um dos aspectos mais perturbadores da nossa época é que ela está assistindo à banalização da morte. É o tema embutido em "Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos".
Hesite-se um pouco antes de usar a definição "documentário", de tal maneira ela se tornou assustadora para o público. Os espectadores vêem documentários na TV, no canal Discovery, mas não no cinema. Chame-se o filme de Masagão de "filme-memória". O cineasta sintetiza o século por meio de grandes personagens e pequenas vidas ou grandes vidas de pequenos personagens. E contesta a idéia de que o século 20 é o da imagem. Ele usa a imagem, mas não prescinde da palavra impressa. O que prescinde é da figura tradicional do narrador.
Também faz cinema usando recursos da linguagem de vídeo. Ao eliminar o narrador da estrutura do seu filme, Masagão adotou um projeto audacioso. Baseado na vanguarda russa - ex-militante trotskista, considera a cultura russa, com a brasileira, a mais rica do mundo -, ele debruçou-se sobre as teorias de montagem de Eisenstein e Pudovkin e talvez não seja despropositado dizer que também acrescentou um toque de Zelig (de Woody Allen) ao seu projeto. Privilegiou especialmente a montagem de atrações de Eisenstein: duas imagens superpostas produzem uma terceira no insconsciente do público. É assim que ele relaciona, por meio da montagem, a figura do alfaiate que tentou voar, saltando da Torre Eiffel no começo do século, com a do fracasso da missão da Challenger, quando a nave americana explodiu aos olhos aterrados do público que via o lançamento. São muitas histórias, algumas rigorosamente documentadas (a do engenheiro eletricista que quase morreu de estresse horas antes de iluminar o Palácio das Luzes da Feira Internacional de Paris), a maioria fictícia.
A imagem documentada é real, seja uma fotografia ou um filme. Mas, em cima desses personagens, a maioria anônimos, Masagão teceu suas ficções. Tudo para discutir a capacidade de destruição do homem do século 20. É o tema que percorre "Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos", até mesmo justificando aquela inscrição no pórtico do cemitério. Masagão foi buscar em Freud o suporte científico para analisar esse fascínio do homem pela morte e a banalização da destruição e da violência, por meio de duas grandes guerras e mais inúmeros conflitos que nunca deixaram de pulular, ao longo do século. Falando sobre a morte sem morbidez, falando de artistas a quem admira, fazendo poesia com a imagem, criticando sempre, ele conseguiu o prodígio, nessa era de mesmice, de fazer um filme que é um elogio à inteligência do público. Mais informações no site www.filmememoria.com.br (L.C.M.)





