'Marty Supreme:' a epopeia amoral do sonho americano
Em cartaz em Londrina, filme carrega todas as marcas do diretor Josh Safdie; Timothée Chalamet é sério candidato ao prêmio de Melhor Ator
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026
Em cartaz em Londrina, filme carrega todas as marcas do diretor Josh Safdie; Timothée Chalamet é sério candidato ao prêmio de Melhor Ator
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Baseado livremente nas aventuras da vida real do jogador de tênis de mesa nova-iorquino Marty Reisman, ativo desde a década de 1950 até sua morte em 2012, “Marty Supreme”, em quarta semana de exibição em todos os continentes, é um turbilhão de atividades, movimentos, eventos e acidentes, comparável à velocidade dos jogadores de pingue-pongue de elite. Como era de se esperar dado o histórico do diretor Josh Safdie, este primeiro longa-metragem solo dele desde “O Prazer de Ser Roubado” (2008) carrega todas as marcas do estilo hiperativo que o tornou famoso, quase sempre em colaboração com seu irmão caçula Benjamin “Benny” Safdie.
O aporte judaico está em toda a filmografia da dupla; e Josh Safdie é uma das vozes mais reconhecíveis do cinema independente americano, graças a um ritmo acelerado, personagens dominados pela ansiedade e uma mise-en-scène que transmite uma pressão e pressa constantes, que ele costuma imprimir em todos seus trabalhos.
O filme também é o retrato ficcional de Marty Mauser, jovem egocêntrico, narcisista, golpista e extremamente ambicioso, capaz de (quase) tudo para alcançar seus objetivos esportivos e financeiros, independentemente do custo ou de quem sofra no processo. E por fim, mas não menos importante, “Marty Supreme” implica uma espécie de consagração definitiva de Timothée Chalamet – cuja idade é apenas um pouco superior à do personagem – como um dos atores mais importantes e midiáticos de sua geração, embora aqui seja por vezes difícil reconhecê-lo sob a caracterização física, os óculos e a acne juvenil. Ele também vale uma boa olhada na noite do Oscar, em 15 de março.
Para Marty Mauser, o tênis de mesa é um esporte que ele joga melhor do que a maioria, uma forma (potencial) de ganhar a vida e, por extensão, uma metáfora de como encarar a vida. À sua maneira, Marty vê seu futuro e a si mesmo como alguém que precisa superar os outros "jogando a bola" neles, livrando-se dela e derrotando-os por meio de engano, truques, persistência e talento. Se uma mesa de tênis de mesa é o mundo e a maneira como ele joga é uma filosofia de vida, Marty vence por meio da determinação, energia e uma fé inabalável em sua capacidade de sempre conseguir o que quer. A qualquer custo.
“Marty Supreme” é filme sobre ambição, ego e obsessão que acompanha a carreira de Marty Reisman, um joão ninguém que vai desde jogar por dinheiro nos clubes mais decadentes de Manhattan a querer ser a elite do tênis de mesa, apesar de estar longe disso. Ele é um personagem egocêntrico e ardiloso, obcecado em chegar ao topo (do mundo do tênis de mesa ou de qualquer topo).
SUCESSO DESCONFORTÁVEL
O filme, cinebiografia não convencional e uma exploração desconfortável do sucesso, do talento e da competitividade desenfreada que está longe de exaltar as virtudes de seu biografado, expõe sem pudor todas as suas obsessões, peculiaridades e podres. A situação é tão amoral que realmente não é fácil sentir empatia pelo protagonista, como costuma acontecer nesse gênero.
O filme ostenta o ritmo e a velocidade de uma bola de pingue-pongue que desliza de um lado para o outro da mesa. Mais de uma vez, os espectadores se verão acompanhando as peripécias de Marty como se estivessem hipnotizados pelo voo implacável e imparável da bola. Nesse sentido, o filme (ou o diretor Josh Safdie) compartilha a mesma autoconfiança de seu protagonista e se expressa com um talento técnico semelhante: sua força reside em vencer pela força bruta, subjugando o oponente e deixando-o constantemente em apuros.

“Marty Supremo” não é um filme de esportes típico (como também não é uma comédia negra a rigor). Na verdade, as cenas de pingue-pongue ocupam pouco espaço na trama, e uma das características mais marcantes da narrativa é sua capacidade de se adaptar a uma aparente e interminável desonrientação. Marty corre, pula e se esconde; acaba cuidando do cachorro de um mafioso de quinta categoria após um acidente inusitado; participa de algo que se assemelha a um sequestro; se infiltra nos bastidores de um teatro da Broadway; e argumenta sobre o plano de um fabricante de canetas que poderia se tornar seu patrocinador, entre dezenas de outros eventos O que de certa forma caracteriza o filme como episódico. Sem maiores deméritos.
As duas horas e meia de duração se desenrolam em ritmo alucinante e, por vezes, a influência dos filmes mais eletrizantes de Martin Scorsese é evidente. Mas de repente uma sensação de superficialidade começa a permear as ações e cenas. Como se o movimento contínuo ofuscasse a falta de outros ingredientes narrativos e dramáticos.
Dito isso, o domínio de Safdie na direção e na edição é inegável, assim como sua completa ausência de medo em experimentar, por meio de pura tentativa e erro, novas maneiras de contar uma história que evitam o academicismo e os padrões convencionais. Se desconsiderarmos a cena final, uma concessão à redenção eventual do personagem que parece um tanto dissonante de seu padrão de amoralidade, talvez a maior conquista do filme seja que o protagonista, um personagem absolutamente irritante e até insuportável, é quem arrasta o espectador com prazer em suas desventuras, como uma bola lançada de um lado para o outro da rede.


