Mart'nália sem cuíca, pandeiro nem tamborim
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quarta-feira, 25 de abril de 2012
Roberta Pennafort <br> <br> Agência Estado 
Rio de Janeiro - Seis CDs com mais ou menos os mesmos ingredientes, agenda concorrida de shows pelo Brasil e pelo mundo, praticamente uma unanimidade entre os fãs de samba, Mart'nália agora quer ''fazer outro som, pegar mais pela melodia do que pelo ritmo''.
Em Não Tente Compreender (Biscoito Fino), o CD que está chegando às lojas e que já toca nas rádios, se ouvem teclado, baixo, violão, guitarra, sopros. ''Mudei de poesia e fui para o pop, sem cuíca, pandeiro e tamborim'', ela avisa, em seu texto de agradecimento.
Depois de uma sequência de trabalhos com ''a galera de Vila Isabel'', calcados na percussão (era um quarteto dedicado ao batuque) e com as cordas do samba, a cantora achou que precisava deixar a tal zona de conforto. ''Era tudo lindo e gostosão, mas às vezes, desgastante. Eu já entrava com o jogo ganho.''
Pensou logo em Djavan, a quem já havia gravado e de quem admira ''o jazz'' e o ''djú-bidjú-bidjú''. ''O Dija tem essa melodia que vai para aquele lado que a gente não pensou. Para mim, é um sambista. Se eu posso brincar de outra coisa, posso errar pra caramba, mas vou brincar.''
E quem resiste a Mart'nália? A voz mansa, a boa-pracice herdada de Martinho, a risada a toda hora, a despretensão, a molecagem. Djavan até tentou, mas não resistiu - foi preciso persegui-lo depois de shows para convencê-lo. ''Me dirige aí!'', pedia.
''Eu estou me divertindo bastante, é supergratificante. É bem diferente da minha rotina. Martina é ótima e talentosa. A gente conversou muito, as ideias coincidiram. Tudo foi colocado de maneira amorosa e simples'', contou Djavan nos depoimentos dos bastidores.
Não Tente Compreender é um ''disco de amor'', sem as letras provocativas e malandras de CDs anteriores, que falavam de flertes e noitadas (Chega, Cabide, Tava Por Aí, Ela É Minha Cara...).
Mart'nália pediu e recebeu músicas de um grupo de notáveis: Marisa Monte, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nando Reis, Lula Queiroga, Ivan Lins (que virou parceiro). De Adriana Calcanhotto, finalmente gravou Vai Saber, o samba feito para ela há seis anos, mas registrado primeiro por Marisa porque o CD com a música entregue pela gaúcha se perdeu. ''Fiquei morrendo de vergonha, esperando o disco da Marisa sair para aprender a música'', lembra, marota, sempre o sorriso branco.
É das poucas levadas de samba (com piano, violão, bandolim e um resquício de percussão) entre as 14 faixas. Outra é a solar Itinerário, de Max Viana, filho e ''representante'' de Djavan entre os compositores.
A faixa-título, que brinca com a mudança de ares, é de Marisa e Dadi, ''um popzinho'' que fala do amor como ''uma semente jogada no chão''. O clima carioca, uma marca, está impresso no disco na busca pelo amor pedalando na Lagoa, ao sol poente do Leblon.
Bossa-novista, Eu Te Ofereço, de Gil, faz promessas de um relacionamento sem cobranças: ''E nos bares que tu frequentes/ sirvam outros cachorros quentes/ refrigerantes/ que não comeste/ bebeste por aqui''. Caetano, por sua vez, em Demorou, fala de um ''coração cheio'', a realização de um sonho amoroso. Depois Cura, de Lula Queiroga, faixa com sotaque nordestino emprestado pelos pífanos de Carlos Malta, chora a dor da perda. A música nas rádios é a gostosinha Namora Comigo, de Moska.
As letras de Mart'nália vão mais para a paixão, o desejo. ''Serei eu a sua estrada?'', pergunta, na faixa com Ivan e Zélia Duncan, antiga parceira. Mombaça, também velho colaborador, coassina Que Pena, Que Pena...: ''Só me encontrei no teu paladar/ Já estava em suas mãos.''
Zero Muito, de Nando, que trata do velho amor não correspondido, ''nação sem ser lugar'', pode ser um momento surpresa do show, a ser dirigido por Guilherme Leme e Marcia Alvarez, produtora executiva do CD, com luz de Ney Matogrosso (dia 12/5 no Vivo Rio; 17/5 no HSBC Brasil): a percussionista Mart'nália, que toca violão só na hora de compor, ensaia para tocar guitarra em cena. Quem emprestou o instrumento foi Tony Bellotto. ''Dói muito o dedo!'', reclama.
Ela sempre canta Martinho, dos hits aos sambas desconhecidos. Dessa vez, escolheu a triste Reversos da Vida, de 30 anos atrás. Nos dois meses de preparação do CD, Mart'nália chegou a ligar para o pai para saber se estava no caminho certo. Mas as respostas sempre eram na linha ''faz o que você quiser; se você está feliz...''
Mudar dá medo, mas o humor é o mesmo. ''Não gosto de ficar 'só ali', sempre fui 'dali' também. Mas no show vou ficar tremendo. É como se eu estivesse pelada.''
Serviço:
- Não Tente Compreender
Artista - Mart'nália
Gravadora - Biscoito Fino
Preço médio - R$ 30


