Martinho da Vila volta ao melhor do samba em "Pai da Alegria"
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terça-feira, 21 de setembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 22 (AE) - Diz-se de um samba não muito bom - daqueles feitos para ser consumido rapidamente - que é boi com abóbora. Martinho da Vila andou perigosamente próximo dos bois com abóbora, em seus últimos discos. Não é o caso desse mais novo, "O Pai da Alegria". O grande sambista da Vila Isabel retomou o melhor rumo. E lançou obra digna de seus imensos talento e sensibilidade.
"O Pai da Alegria" é uma festa. Com ela, Martinho canta, com um mês de antecipação, a chegada de mais uma filha - Alegria, naturalmente. "Faço tudo o que tem de fazer/ Pro amor render", canta, no partido-calango da primeira faixa, "Pro Amor Render". "O que é de beber eu bebo/ O que é de banhar, me banhe", puxa, na continuidade. "Bato o tambor que tiver de bater/ Acendo tudo o que é de acender/ Ralo o que for de ralar" - prega, na celebração escrita pelo novo bamba Dudu Nobre, parceria com Roque Ferreira.
É o 31.º disco de Martinho e o melhor dos últimos anos. "O Pai da Alegria", o partido, é uma pérola: "Se é pra sambar
entra na roda/ Vem requebrar, que a roda gira" - são versos simples, diretos, que, combinados à melodia (trata-se de parceria de Martinho com Agrião), se tornam sutilmente ricos - essa é uma arte que a turma do "samba de ladinho" jamais dominou. "O samba é o pai da alegria", Martinho canta. Sabe do que fala.
Com Tunico Ferreira, seu filho, Martinho escreveu outra gostosa brincadeira cheia de picardia, "Pára de Brincar Comigo", Mulher - ele fala "mulé". Com Roque Ferreira, de volta ao balanço do calango combinado ao do partido, fez "Eu Vi Seu Ex-Amor", mais uma crônica: "Benza Deus o que mudou nela"
goza, para o amigo que perdeu a mulher.
"O Pai da Alegria "propicia ainda visitas históricas. Primeiro, a Pixinguinha, no maxixe "Gavião Calçudo", que Martinho canta em duas versões: com a linguagem intencionalmente errada do original ("Us curpado disso tudo/ É us marido dagora") e, depois, corrigindo e atualizando ("As mulher sai perfumada/ E com a barriguinha de fora"). A segunda visita é a Noel Rosa, três sambas reunidos numa única faixa: "Feitio de Oração" (Noel e Vadico), "Para me Livrar do Mal" (Chico Alves
Noel e Ismael Silva) e no pouco conhecido e lindíssimo, dolente
"Estrela da Manhã "(Ari Barroso e Noel). O arranjo da faixa, de João de Aquino, é o melhor do disco.
Mesmo nos sambas lentos, como "Luz do Meu Amor" (de Maria da Paz e Papacaça), com teclados em profusão, Martinho conserva a dignidade; e a participação do Katinguelê (um tolo golpe de marketing, musicalmente desnecessária) não chega a comprometer. É nota dissonante, jogo para a torcida - mas Martinho da Vila está anunciando a volta aos bons termos. E isso precisa ser comemorado. O Pai da Alegria. Martinho da Vila. Lançamento Sony Music. Preço médio: R$ 18


