Martinho da Vila traz a áfrica ao Brasil em novo CD
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quinta-feira, 30 de março de 2000
Por Mauro Dias 
São Paulo, 31 (AE) - Um quinteto de metais faz a introdução da primeira faixa, um samba gingado que, naquele momento, ganha cores de gafieira. A faixa é "Lusofonia". Um hino à expressão de origem portuguesa, mas não só. Um samba-enredo prototípico, com letra de Élton Medeiros, que faz o elogio das "nações irmãs que preservaram os sons e a cultura de raiz" e que propõe a lusofonia na diplomacia universal.
É a primeira faixa do disco "Lusofonia", concretização de um antigo sonho de Martinho da Vila. O lançamento, pela Sony Music, deve ocorrer no início do mês que vem.
Lusofonia, o projeto, vai assim explicado pelo autor: "Não é somente a adoção do idioma português como linguagem de cultura. É a ação de solidário intercâmbio cultural entre os povos lusoparlantes e também a filosofia de interligação afetiva entre os lusófonos. Lusófono é quem está identificado com a lusofonia. Eu me sinto assim, mas não gravei esse CD com intenção prioritária de fazer política cultural."
Esse é um trecho do texto que Martinho escreveu para a contracapa do disco. Continua: "Sonho com esse disco faz muito tempo, levei mais de dois anos na elaboração e, portanto, não é um trabalho feito especialmente para as comemorações dos 500 anos de Brasil. É apenas um CD de carreira feito para tocar no rádio e fazer o povo dançar e cantar com ancestral emoção."
Vai tocar no rádio e fazer o povo dançar e cantar. "Lusofonia é uma delícia. É, longe, o melhor disco de Martinho dos últimos tempos. E é seu projeto mais ambicioso e abrangente. Ao longo das andaças pelo mundo, o compositor foi conhecendo (e guardando) temas musicais e ritmos de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé, Príncipe, Moçambique - antigas colônias africanas da áfrica; somou-se uma música em homenagem ao Timor Leste, peça que Martinho compôs, com Rildo Hora, há algum tempo, e que considerou ideal para fechar o CD.
Martinho traduziu as letras para nosso português coloquial, próprio do samba, e conta, no disco, com a participação do grupo Tabanka Djaz, um sexteto originário da Guiné Bissau. A música chama-se "Tira Mão da Minha Xuxa", e Martinho usa, como música incidental, um tema folclórico da Guiné, Dona Mariana". Não é um samba: parece mais próxima da música caribenha - mas vira samba, em determinado momento. "Xuxa" é chupeta de criança, do dialeto da Guiné Bissau. O resultado é malicioso, sem ser grosseiro.
Há outro número de lá: Bacu, de Luís Cabral, Juvenal Cabral, Jânio Barbosa e Carlos Barbosa - a palavra que dá título à moda corresponde à expressão amizade colorida. De Moçambique, Martinho trouxe "Vamos Cultivar", uma espécie de canto de trabalho que fala de plantação - de milho, feijão, pimenta, gergelim. A participação especial, aqui, é da cantora moçambicana Astra Harris. Já "Carambola", de João Seria, apresentada em versão de Martinho, vem de São Tomé e Príncipe. Explica o texto de apresentação do disco que a música era do repertório de um grupo chamado áfrica Negra - imagina-se que tenha sido desfeito. "Carambola" é não só fruta, mas também moça bonita e sapeca.
Outro convidado do disco é Zeca Baleiro, que canta, toca violão, escreveu arranjo e rege o grupo em "Salve a Mulatada Brasileira, de Martinho. A letra faz o elogio da miscigenação ("Eu não sou branquinho nem pretinho/ A minha dona é moreninha/ E tenho muitos mulatinhos") e cita José do Patrocínio, Aleijadinho, Machado de Assis, Moçambique, Duas Barras - terra de Martinho, no interior do Estado do Rio -, Rio de Janeiro, Olinda, Diamantina, Cabinda, Dili (no Timor Leste). Martinho explica que ouviu Zeca Baleiro cantar sua Disritmia" e ficou impressionado. O trabalho deles dois resultou numa das melhores faixas do disco.
Outras peças do repertório: Hino da Madrugada", do angolano Don Kikas, que faz participação especial. A versão, como todas, é de Martinho; Dança Má Mi Criola", de Toy Vieira, de Cabo Verde; também de Cabo Verde, "Nutridinha do Sal", de J. Gonçalves Gregório, com participação especial da local Celina Pereira.
Curiosidade são sambas - ou adaptação para samba - de Portugal: "Lisboa, Menina e Moça", de J. Pessoa, Ary dos Santos, Paulo de Carvalho e Fernando Travassos Tordo (número de autores digno de samba-enredo) e "O Homem das Castanhas", de Ary dos Santos e Paulo de Carvalho. É, são nomes desconhecidos por aqui, infelizmente.
Vale destacar o lindo enredo Vasco da Gama", de Martinho e Nei Lopes, letra admirável para melodia rica e saborosa (e grande arranjo de João de Aquino). Martnália, filha de Martinho, canta um trecho e faz lembrar uma Elza Soares mais contida, o que é boa medida. Enfim, "Lusofonia" viaja do Brasil para a áfrica e retorna a bordo da caravela de Vasco da Gama, trazendo-nos de volta o velho e melhor Martinho da Vila.


