Martinho da Vila, o pequeno burguês do samba
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Como todo mundo, Martinho da Vila tem direito à felicidade, mas também sofre. A diferença é que sabe transformar alegria e dor em samba, dividindo com os fãs, na edição especial e limitada do CD e DVD ''O Pequeno Burguês'' (Canal Brasil/MZA), esse coração que bate cadenciado.
Gravado no Teatro da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), em São Paulo, o show transforma o palco no quintal da casa do sambista, recebendo amigos em participações especiais, como Mané do Cavaco (cavaco), Paulinho da Aba (pandeiro), Gabriel de Aquino (violão) e o filho Tunico Ferreira, que antes de acompanhar o pai na percussão, pede a benção.
Aos 70 anos de idade, Martinho é o mesmo que estreou no III Festival da MPB, da Record, em 1967, com a música ''Menina Moça''. Uma jovialidade na voz, que é porta-jóia de sua poesia. Tão valiosa como a sapiência da maturidade que refina, lapida e enriquece a obra do primeiro sambista a ultrapassar 1 milhão de cópias com o CD ''Tá Delícia, Tá Gostoso'' (1995).
O show é uma conversa musicada em que ele canta a sua história, revelando-se um homem que foi muito amado e que também muito amou - talvez aí a explicação de tanto sofrer e felicidade.
Exercitando sua filosofia de vida em fazer tudo devagar, bem devagarinho, Martinho abre o show sozinho, com o pandeiro.
Ele vai dizendo num partido alto, um gênero de samba em que os autores criam os versos na hora, que a vida é comprida e que precisa do amor de ''Menina Moça''. A música abalou os costumes, considerada pela ditadura militar uma apologia à degradação da família.
Uma das 20 composições do DVD, ''Menina Moça'', é uma ode ao amor, ainda que incompreendida pela ditadura. No ano seguinte, emplacou no festival ''Casa de Bamba'' e levou a briga para dentro de casa. '''Menina Moça' provocou estranheza porque ia contra a instituição família, na opinião dos censores, já que, na época, se discutia o divórcio. Em 'Casa de Bamba' tive problema na família. A minha mãe disse que a música era pura mentira e que primeiro eu falava mal da família dos outros e agora, não contente, falava da própria família, dizendo que todo mundo bebia, xingava e fazia macumba. Minha mãe era muito católica'', conta Martinho.
Além do amor e os amigos, Martinho ama a Vila Isabel e o Carnaval. Uma de suas músicas mais bonitas, ''Madrugada Carnaval e Chuva'', também é uma bela história carnavalesca.
''Não gosto nem de lembrar. A Vila era favorita. Foi uma tristeza. Caiu uma chuva sobre a Vila e a escola ficou em oitavo lugar. O pessoal ficou muito triste. Falei: 'Vou fazer um samba para alegrar o pessoal'. Eu cantava: 'Alegria pessoal...' e o pessoal chorava'', conta.
No show, um senão. Apesar da irretocável versão de ''Ex-Amor'' ao violão do jovem Gabriel de Aquino, valeria à pena ouvir Martinho cantar para podermos entender um pouco mais dessa felicidade e dor que toma conta de sua música ao declarar: ''Gostaria que tu soubesse/O quanto que eu sofri/Ao ter que me afastar de ti/Não chorei/Como um louco eu até sorri''.


