Martín Chambi, um artista inventivo
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de maio de 2010
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
Produzir fotografia em larga escala nos anos 20, na América do Sul, era um processo muito mais lento e trabalhoso do que hoje, obviamente devido à tecnologia rudimentar daquela época, bem diferente das máquinas digitais e das ferramentas de finalização disponíveis atualmente. Um nome se destaca, justamente por fazer muito com muito pouco: o peruano Martín Chambi foi um artista da imagem que abusou da criatividade para chegar a resultados impressionantes, disponíveis para o público paranaense na exposição ''Martín Chambi - O Poeta da Luz'', no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba.
''O que ele tem de mais fascinante é a maneira especial com que ele lida com a luz, principalmente no rosto das pessoas, no jeito que ele capta os olhares dessas pessoas'', exalta a curadora da mostra, Leila Makarius. ''Na época que ele fazia as fotos, havia uma influência muito grande da Europa e dos Estados Unidos na fotografia. E as fotos dele não tinham esse olhar de ''turista''. Era a foto de alguém que pertencia àquele lugar'', complementa.
Martín Chambi nasceu em 1891, em uma pequena vila em Coaza, no Peru, em uma família de agricultores. ''O trabalho de meu avô se destaca, especialmente, por duas razões: porque ele fazia as coisas com o coração de uma pessoa que veio de uma origem campesina, de uma família humilde, indígena; e pelo talento'', comenta Teo Allain Chambi, que acompanhou toda a carreira do avô.
Foi no ciclo do ouro em Carabaya, no início do século XX, que Chambi teve o primeiro contato com uma máquina fotográfica e, em seguida, decidiu seguir o ofício. ''Em 1917 ele já era fotógrafo profissional. Me lembro bem, porque fui seu primeiro neto, então ele tinha muito interesse em mim'', recorda Teo. ''Profissionalmente era muito rigoroso, mas com a família era muito alegre. Nessa época, eu não me interessava muito pela fotografia, mas pelas diversas pessoas que passavam pelo estúdio dele.''
Foi no estúdio que Chambi começou a exibir seu lado criativo para ''resolver'' problemas que a tecnologia da época não podia. Entre as 88 fotografias originais na mostra, estão, por exemplo, imagens comerciais com um tipo de luz difícil de reproduzir até nos dias de hoje. ''Para conseguir a luz que queria ele teve que quebrar uma parte do teto do estúdio e colocar uma placa de vidro branca, não transparente'', revela Teo. ''Em outras fotos, ele desenhava com produtos químicos as placas de vidro antes de tirar a foto. Na hora de revelar, a imagem que ele tinha tirado interagia com o espaço que ele reagia com a química depois.''
De acordo com Teo, o avô mantinha um arquivo de fotos com as frágeis placas de vidro. São cerca de 30 mil imagens intactas. Muitas delas fazem um retrato social da herança cultural de seu povo, os monumentos indígenas, as paisagens andinas, as tradições indígenas. ''As fotos reúnem muitas possibilidades e temas. Ele fez muito bem a fotografia histórica, documental, social... Retratou a paisagem e a arquitetura. Ele destacou o sentimento de seus pares, o rosto de sua gente. Isso me emociona'', diz Teo.
O material de Chambi já esteve no Brasil em outras quatro ocasiões, em São Paulo, Brasília e Porto Alegre, mas nunca antes no Paraná. ''Os brasileiros, como muitos na América do Sul, viveram esse momento indígena. Todos aqui aceitam e apreciam as fotos não somente pela qualidade artística, mas também pela história. É por isso que acho que as fotografias do meu avô sempre voltam para cá.''
SERVIÇO
■ Martín Chambi - O Poeta da Luz
Quando - Até o dia 26 de junho, de terça-feira a domingo, das 10h às 18h
Onde - Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba
Quanto - R$ 4 e R$ 2 (meia)


