Marrom da cor do samba
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de setembro de 1998
Fábio Dobbs Cult Press 
Junte os maiores sucessos de uma carreira de 27 anos com parcerias de nomes conhecidos da MPB e está dado o primeiro passo para vendas. Essa é a fórmula do disco Celebração, de Alcione. A Marrom, como é conhecida, resolveu soltar a voz em 20 faixas que marcaram a carreira. Fiz o disco para vender mesmo, assume Alcione. Apesar de ser uma reciclagem, Alcione não descuidou dos arranjos, produção e organização do álbum. No estúdio, houve momentos em que 71 pessoas estavam agrupadas para gravar o disco.
De todas as faixas, Sufoco é a que ganhou uma leitura mais diferente, que chega até mesmo a surpreender a cantora. Ficou mais sofisticada. Virou um alívio, espanta-se. Não foi a única. Alcione está mais solta e madura na reinterpretação das músicas, abusando de agudos e graves e brincando com a voz. Adota um estilo blues e quase jazzístico para faixas como Mesa de Bar, que conta com a participação de Ed Motta. Sempre me criticaram dizendo que eu era muito jazzística. Não dou mais importância para isso, enfatiza. A maturidade não rendeu apenas a confiança no próprio estilo, como também o aprendizado de uma divisão melhor comprovada na antológica Rio Antigo, de Nonato Buzar e Chico Anysio.
Ao todo, o disco tem oito participações, cada uma escolhida a dedo para Celebração. A maranhense Rita Ribeiro aparece em Cajueiro Velho, uma faixa gravada em homenagem ao pai de Alcione. Como Rita era conhecida da família, o convite foi inevitável. Outra que já estava previamente escalada era Sandra de Sá, na faixa Verde e Rosa. A cantora foi convidada simplesmente pela amizade, por ser mangueirense, flamenguista e sambista.
O disco serviu também para pagar velhas dívidas, como a com Maria Bethânia. A cantora baiana foi a primeira a convidar Alcione para gravar com ela. Em retribuição a Marrom chamou Bethânia para gravar Um Ser de Luz. Outra dívida foi paga com a participação da Velha Guarda da Portela em Pintura Sem Arte. O portelense Candeia foi um dos primeiros a confiar no meu samba, justifica.
Mas nem tudo é dívida. Algumas participações foram escaladas apenas pela admiração de Alcione. É o caso de Alexandre Pires do Só Pra Contrariar, que está na faixa Estranha Loucura. Já o lilás Djavan faz um duelo de vozes com a Marrom Alcione em Gostoso Veneno. A última da escalação é Cássia Eller que fecha o álbum com Não Deixe o Samba Morrer. Assim, com participações e novos arranjos, faixas antigas ganharam cara nova capazes de estimular novas vendas.


