Marlui Miranda e Lelo Nazário assina trilha sonora do filme
Marlui Miranda e Lelo Nazário assina trilha sonora do filme16/Mar, 16:32 Por Mauro Dias São Paulo, 16 (AE) - O grande problema com a trilha sonora de Hans Staden é que não há previsão de lançamento comercial do disco. O trabalho de Marlui Miranda e Lelo Nazário foi gravado num CD promocional, recursos capitados por uma penca de financiadores públicos e privados. O material contido no disco parte da pesquisa de Marlui Miranda, obra de vida, entre os índios de Rondônia - o tema principal é adaptado da tradição dos tuparis, de Rondônia, "Miãrã Põrõ" (como a pesquisadora o grafa), conforme transmitido por um certo Antônio Gogó. Não é um trabalho bruto de recolhimento. Os temas foram retrabalhados. Cantam-nos o Coral Vrap, formado por Maru Ohtani, Patrícia Villas Boas Cueva, Cecília do Val, Denise da Matta, Simonte Santos, Silas de Oliveira (é homônimo do famoso compositor de samba), René Misuimi, mais Manoel Tupari e o elenco de apoio do filme. Acresçam-se os teclados de Lelo Nazário, a voz, flautas indígenas e percussão de Marlui, as flautas de Teco Cardoso, o oboé de João Cuca. A pesquisa de texto - as 26 faixas são suscintamente explicadas no índice constante do libreto que acompanha o disco - é de Marlui, Murilo de Andrade e Paula Barbosa. Marlui Miranda, como Egberto Gismonti, falando dos dois pesquisadores talvez mais importantes, foi ouvir os índios não para fixar fórmulas folclóricas ou apreciar raízes culturais, mas por profunda compreensão da música deles e profundo respeito por eles e ela, música. Trata-se de uma forma de expressão músical dissociada do sistema lógico da música ocidental, equidistante da sintaxe oriental. É um outro sistema e o fascínio de buscar entendê-lo é o eterno e indispensável ao homem desafio do conhecimento. Pairam sobre as diferenças, contudo, valores absolutos - a expressão dos sentimentos, em forma de arte, não é privilégio de nenhuma cultura, e existe uma força condutora comum, que pode ser entendida por quem se disponha a isso. Beleza pode, dessa forma, ser considerada valor absoluto. As intervenções de Lelo Nazário e seu grupo de músicos não tem papel aculturador: esclarece, isso sim, alguns pontos comuns aos sistemas lógicos, mas esclarece também sobre o tamanho das distâncias. Se "Hans Staden", o filme, é um trabalho que merece atenção, "Hans Staden", o disco, é uma obra-prima, que precisava tornar-se disponível para quem se interessa por culturas, por cultura. Marlui Miranda confirma a posição de, hoje, mais importante e corajosa estudiosa desse mundo próximo e longínquo que é a expressão musical dos indígenas brasileiros.





