O que primeiro impressiona, em ‘‘Além da Linha Vermelha’’, é o estupendo trabalho de marketing que o envolve. Entre outras coisas, ele conseguiu nos convencer, de uma hora para outra, de que a ausência de 20 anos do diretor Terrence Malick (seu último filme é de 1978) foi uma perda irreparável, ou melhor, só reparável pela saída deste novo trabalho.
Na verdade, pouca gente fora do círculo familiar lembrava que Malick ainda existia. Ninguém sentiu tanta falta assim. Quando em atividade, nos anos 70, ele não chegou a ser um dos talentos mais empolgantes de sua geração. Algumas informações passadas à imprensa também são sintomáticas da precisão do marketing de ‘‘Além da Linha Vermelha’’. De acordo com elas, um trabalho antropológico digno de um Lévi-Strauss foi realizado para retratar com precisão os traços dos habitantes das ilhas do Pacífico onde se realizou, durante a Segunda Guerra, a sangrenta batalha de Guadalcanal - de que o filme reconstitui um fragmento. Informações desse tipo tendem a criar a aura que vem cercando esse filme sobre uma companhia de artilharia norte-americana encarregada de tomar uma posição estratégica.
Dito isso, essa aura não é de todo artificial. Guadalcanal foi um dos episódios mais sangrentos do fronte oriental, durou cerca de seis meses e a expulsão dos japoneses da ilha foi um triunfo mais que significativo dos Aliados. Malick dispôs-se a mostrar a crueza desses combates a partir de um grupo de homens encarregado de uma das muitas missões insanas que ali tiveram lugar.
‘‘Além da Linha Vermelha’’ tem o mérito inegável de fugir ao figurino hollywoodiano atual, ‘‘redondo’’ e um tanto cosmético, impecável, mas em que se percebe a falsidade seja das propostas, seja das imagens (caso do límpido ‘‘O Resgate do Soldado Ryan’’, outro candidato ao Oscar). Entre os dois, o filme de Malick parece mais estimável, mais verdadeiro, até por suas imperfeições.
A mais sensível dessas imperfeições talvez venha do roteiro. Visivelmente, Malick tinha filme para muito mais tempo do que sua duração final. Para ficar numa medida razoavelmente standard, tem-se a impressão de que muito material foi cortado na sala de montagem, o que produziu uma narrativa meio truncada, em que o espectador sente, não raro, dificuldade para se localizar.
Mas, nessa era de narrativas tão impecáveis, que não deixam a menor margem de dúvida sobre o que aconteceu antes e o que virá depois, esse desconforto proporcionado ao espectador não deixa de ser estimulante. A clareza não é uma virtude obrigatória.

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