Mariss Jansons se apresenta em São Paulo
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segunda-feira, 01 de novembro de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 02 (AE) - Richard Strauss gostava de dizer que só suava a camisa para reger o "Tristão" e, hoje, boa parte de seus colegas de batuta nem sequer se dá a esse trabalho. Uma discreta (não por causa de seu talento, mas por sua personalidade) exceção é Mariss Jansons, um incansável operário da música que põe o coração no que faz.
A ponto de sofrer um enfarte por excesso de trabalho. "Tenho, no máximo, dez dias de descanso por ano", revelou numa entrevista. O sacrifício é válido, como você poderá conferir amanhã e depois, no Municipal, em São Paulo, dentro da série do Mozarteum Brasileiro, nos dois concertos que dirige, à frente da Filarmônica de Oslo, tendo, de quebra, como solista, o sensacional violinista Gidon Kremer, tocando o "Concerto para Violino", de Philip Glass. Além disso, a orquestra apresenta obras de Mahler, Beethoven, Verdi e Brahms.
Jansons, nascido em Riga, filho do também maestro Arvid Jansons, já esteve no Brasil algumas vezes, com a Filarmônica de Leningrado (antes e depois do grupo ser rebatizado como São Petersburgo) e, desta vez, chega para comemorar 20 anos de parceria com os noruegueses. Que, desde 1979, vem aprimorando a qualidade sonora, transformando a orquestra, fundada em 1871 (entre outros, por Grieg), antes sem grandes brilhos, numa referência marcante no universo da música erudita.
Irrequieto, o maestro ainda continua como principal regente associado de São Petersburgo (desde 1985, aliás, resistindo ao comunismo, à glasnost e, pior, aos ciúmes de Yuri Temirkanov, o titular do grupo russo), bem como diretor musical da Orquestra Sinfônica de Pittsburgh (no lugar de Maazel). No meio tempo, foi convidado da Filarmônica de Londres. Ufa. Haja coração.
Mas arranjou um espaço na cabeça para conhecer Villa-Lobos. "Sempre sonhei em reger seus "Choros", pois gosto muito da expressividade dessa música", já disse. Em 1968, na antiga Leningrado, conheceu Karajan, que se encantou com sua seriedade e paixão pela perfeição sonora. As autoridades soviéticas impediram-no por anos de estudar com o maestro em Berlim e ele só conseguiu ser seu assistente por um pequeno período de tempo, durante o Festival de Salzburgo. Não importa. A influência foi decisiva e não é demais considerá-lo um dos únicos verdadeiros discípulos de Karajan.
Da mesma cidade natal de Jansons, Gidon Kremer é um dos mais importantes violinistas das últimas décadas, um campeão da música contemporânea que ganhou dedicatórias de Schnittke, Gubaidulina, Arvo Prt, Luigi Nono, entre outros. É também um divulgador da música de Piazzola, tendo gravado versões de suas obras com a Kremerata (seu grupo).
É um parceiro constante da temperamental e genial Martha Argerich, em especial uma integral das sonatas para violino, de Beethoven. Ouvi-lo fazendo o "Concerto", de Glass, é um privilégio imperdível.
A Filarmônica de Oslo já foi dirigida por Herbert Bolmstedt, Miltiades Caridis e Okko Kamu, realizando mais de 60 concertos anuais, com solistas como Cecilia Bartoli, Yuri Bashmet, Rostropovich, Jessye Norman, Anne Sophie von Otter, Anne-Sophie Mutter, Ben Heppner, entre outros "nomões". Orquestra honesta, regente talentoso e sem glamour jet set, violinista talentoso e sem marketing idiota: eis um belo trio, raro nas salas de concerto. Não deixe de assistir a eles.
Serviço - Oslo Philharmonic Orchestra. Quarta e quinta, às 21 horas. De R$ 40,00 a R$ 200,00. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, em São Paulo, tel. (11) 222-8698.


