Rio, 22 (AE) - Marisa Monte e Paulinho da Viola ficarão nos camarotes de cima, para que o pessoal da Velha Guarda da Portela não tenha de enfrentar a íngreme escadinha caracol dos bastidores do Palace. Só isso dá bem uma medida da reverência e do cuidado com que os convidados especiais do show de amanhã (23) à noite tratam os 13 veteranos da Portela - uma espécie de "reserva ecológica" do samba de terreiro carioca.
O show "Tudo Azul", que lotou o Canecão nos dias 11 e 12, desembarca amanhã à noite no Palace, em São Paulo cercado de grande expectativa. Não que a Velha Guarda já não tenha sido devidamente apresentada a São Paulo. O próprio Paulinho da Viola fez um espetáculo no Heineken Concerts acompanhado pelos veteranos (mais Canhoto da Paraíba e Gilberto Gil) há alguns anos.
Mas "Tudo Azul" é o resultado de um exaustivo levantamento cultural da vida e do legado portelense, que consumiu meses de trabalho e investigação da história da escola fundada por Paulo da Portela, nos anos 20. "Eu gosto de muitas coisas em música, mas poucas me emocionam a ponto de os olhos ficarem marejados", diz a cantora Marisa Monte, artífice dessa noitada e também produtora do recém-lançado disco do grupo.
A Velha Guarda é uma dessas coisas, afirma Marisa. "Eu sabia, por meio de conversas com eles e com Paulinho da Viola, que tinha muita coisa inédita e muita coisa para ser revolvida, pesquisada". Nata sambista - As motivações de Marisa Monte não foram as mesmas que levaram Paulinho da Viola a gravar, há 30 anos, o disco "Portela - Passado de Glória", no qual ele reuniu pela primeira vez esse grupo que acabou ficando conhecido por Velha Guarda. Paulinho quis evidenciar a existência de uma nata sambista. Já a cantora diz que tudo o que queria era mesmo ouvir um disco deles. "Eu achava que minha vida poderia ser melhor com um disco da Velha Guarda para ouvir - e tinha também uma grande curiosidade para conhecer, investigar".
O roteiro do show (e do disco), segundo Marisa, procurou privilegiar o ineditismo das composições recolhidas - algumas delas existentes apenas na memória dos músicos - e apresentar algum material que já seja bem conhecido do público brasileiro, como "A Chuva Cai" e "Foi um Rio Que Passou em Minha Vida". Além dela e de Paulinho da Viola, o show contará ainda com a participação especial de Paulão 7 Cordas (que também assina os arranjos e a direção musical do CD), Mauro Diniz e os percussionistas cariocas Jaguará e Trambique.
A Velha Guarda comparece com sua elite - Monarco, David do Pandeiro, Jair do Cavaquinho, Argemiro, Casquinha, Casemiro da Cuíca, Cabelinho, Guaracy, Serginho Procópio e as pastoras Tia Eunice, áurea Maria, Doca e Surica. O mais idoso da turma é Casemiro da Cuíca, de 84 anos, que gravou no disco da Velha Guarda a canção "Tentação", composição dele e de Ramon Russo, datada de 1976.
Músicas - O roteiro inclui 21 números musicais (canções e um pot pourri, Nega Danada). Marisa Monte, anfitriã do grupo, canta "Volta Meu Amor", "Dança da Solidão", "Preciso me Encontrar", "Quantas Lágrimas", "Esta Melodia", "Ensaboa" e "Minha Vontade". A Velha Guarda abre com seu hino e canta "Corri pra Ver", "Isolado do Mundo", "O Mundo É Assim", "O Sofrimento de Quem Ama", "Sabiá", "Recado", "Vou Partir", "A Chuva Cai", "Coração em Desalinho", "Benjamim", "Tudo Azul" e "Lenço".
Marisa diz que o samba se tornou uma espécie de símbolo brasileiro no mundo todo somente lá pelos anos 20, a partir de cruzamentos e de sua legitimação pela intelectualidade da época - especialmente os modernistas. Antes, era apenas uma expressão musical regional. Paulo da Portela, fundador da escola, teve um papel preponderante nessa primeira onda globalizante do samba.
Com a ajuda de dois pesquisadores - Suzana Mekler e Emílio Domingos -, Marisa foi atrás do núcleo central de compositores de Osvaldo Cruz. "Quem é você, que não sabe o que diz?/ Meu Deus do céu, que palpite infeliz/ Salve Estácio, Salgueiro e Mangueira/ Osvaldo Cruz e matriz/ Que sempre souberam muito bem", cantarola Marisa, exemplificando com Noel Rosa a importância do grande berço de compositores de Osvaldo Cruz para o samba carioca.
O processo de pesquisa e o resultado, além de também se tornarem filme, deverão fazer com que a Velha Guarda siga o caminho dos cubanos do projeto Buena Vista Social Club, verdadeira coqueluche mundial. Marisa Monte diz que há interesse de um selo francês no lançamento em Paris. Figura central - Paulo da Portela foi uma figura central desse primeiro momento de fundação da Portela. Não havia nas comunidades, naqueles tempos, diversão pública, como teatro e cinema, acentua Marisa. Então, as pessoas se divertiam indo às casas umas das outras, em festas e centros culturais e mães-de-santo.
Paulo da Portela surgiu como um líder comunitário que reunia as pessoas por meio do samba. Ele chegou a impor uma linha de comportamento para os sambistas, para quebrar um pouco o preconceito que havia na época. "O sambista tinha de andar chiquérrimo, de paletó e chapéu", diz a cantora. No atual grupo da Velha Guarda, uma testemunha desse primeiro núcleo da escola é Jair do Cavaquinho (que canta Eu te Quero no CD, acompanhado das pastoras e de Paulão 7 Cordas).
Quando Paulo da Portela morreu, quem assumiu o legado portelense foi Natal da Portela, que - dizem - foi o primeiro bicheiro carioca, o primeiro a criar essa associação entre o jogo do bicho e a agremiação de sambistas. "Durante 20 anos, foi o Natal quem coordenou tudo", lembra Marisa. "Tinha um braço só, era um sujeito enfezadíssimo e uma figura controversa, que muitos odeiam e muitos amam", relembra. "Mas foi um cara que preservou as características da escola".
Até os anos 70, a Portela manteve preservado seu patrimônio de samba e composição. Depois, com o crescimento turístico da escola, o legado da Velha Guarda foi sendo dissociado da Portela. A comunidade espalhou-se pelo morro e os veteranos passaram a ser apenas história. Monarco, um príncipe sambista que maravilha os ouvidos cantando "Portela desde Que Nasci", passou grande parte da vida como porteiro de edifício no Rio. Isso tudo até que Paulinho da Viola - e agora Marisa Monte - resolveram mexer na história. Serviço - Marisa Monte e Velha Guarda da Portela. Amanhã e quinta-feira, às 21h30. De R$ 20,00 a R$ 50,00. Palace. Alameda dos Jamaris, 213, tel.(0--11) 5051-4900.

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